quarta-feira, 2 de julho de 2014

PENPAL - Parte 6 - Amigos - Final



Então galera, enfim chegamos na ultima parte desta serie maravilhosa, espero que tenham gostado, esta é a ultima parte se você não leu as anteriores, leia antes Penpal parte 5, boa leitura!

No primeiro dia de aula do Jardim de Infância, minha mãe tinha decidido me levar de carro ao colégio. Estávamos os dois nervosos e ela quis ficar lá comigo até o momento de entrar na sala de aula. Demorei um pouco pra me arrumar de manha por causo do meu braço que ainda não havia melhorado. O gesso passava um pouco do meu cotovelo, ou seja, tinha que cobrir o braço todo com uma capa de látex quando tomava banho. A capa era feita pra ser bem justa ao redor da abertura pra poder impermeabilizar bem o gesso e impedir que estragasse. Já estava acostumado a vesti-la sozinho. Naquele dia, no entanto, talvez pelo meu nervosismo, não apertei a capa o suficiente e no meio do banho pude sentir a água invadindo o látex, molhando meus dedos. Pulei pra fora e arranquei o escudo de látex na hora, já sentindo que o gesso, antes rígido, estava molenga.
Como não dá pra limpar direito a área entre o seu corpo e o gesso, a pele morta, que normalmente sumiria, fica parada lá. Quando é umedecida por, digamos, suor, acaba liberando um odor, que é, aparentemente, proporcional à quantidade de umidade lá dentro. Assim que comecei a me enxugar, fui atingido em cheio pelo cheiro forte de podridão. Como continuei a esfregar a toalha freneticamente, o gesso começou a se desintegrar. Estava ficando mais e mais estressado – tinha planejado esse primeiro dia de aula tanto quanto era possível pra uma criança . Sentei com a minha mãe pra escolher minha roupa na noite anterior. Passei muito tempo escolhendo uma mochila e estava louco pra mostrar a todo mundo a minha lancheira, com as Tartarugas Ninja na frente.
Acabei tomando o hábito da minha mãe de chamar as outras crianças de amigos, mesmo sem conhecê-las. Mas quanto mais o meu gesso piorava, mas eu temia acabar sem poder chamá-las assim no fim do dia.
Derrotado, chamei minha mãe.
Demorou meia hora pra tirar a água de dentro estragando o gesso o mínimo possível. Pra disfarçar o cheiro, minha mãe cortou lascas de sabonete e jogou-os dentro do gesso, e esfregou o resto do sabonete por fora pra tentar substituir o fedor por algo mais agradável. Quando cheguei ao colégio, os outros alunos já estavam terminando o segundo trabalho do dia e eu fui atirado em um dos grupos. Não explicaram direito o que era pra fazer e, em cinco minutos, tinha feito tanta coisa errada que o resto do grupo reclamou com a professora e perguntou o que eu fazia ali. Eu tinha levado uma canetinha, esperando conseguir umas assinaturas ou algum desenho no meu gesso, além do da minha mãe, e, na hora, me senti um idiota por ter considerado a possibilidade.
Tínhamos a sala de almoço só pra gente, mas como algumas mesas eram proibidas por serem longe, não precisei sentar sozinho. Estava cutucando as pontas estragadas do gesso, encucado, quando uma criança sentou na minha frente.

-Gostei da lancheira – ele disse.



Achei que estivesse fazendo piada comigo, e fiquei irritado. Na minha cabeça, a lancheira era a única coisa que valia a pena naquele dia. Não levantei os olhos, sentindo neles o ardor das lágrimas que queriam cair. Quando finalmente olhei, antes mesmo de conseguir mandá-lo me deixar em paz, vi uma coisa que me fez hesitar: ele tinha a mesma lancheira.

-Gostei da sua também – Ri.

-Acho o Michelangelo o mais legal – Ele disse, imitando nunchakos com a mão.

Estava quase respondendo que o Rafael era meu favorito quando ele derrubou a caixinha de leite no colo.
Tentei segurar a risada, já que não o conhecia ainda, mas a cara que fiz deve ter sido engraçada por ele riu primeiro. De repente, não me senti tão mal quanto ao gesso e pensei que aquele ali nem ia notar o cheiro mesmo. Aí, resolvi tentar a sorte.

-Aí, quer escrever no meu gesso?

Tirei a canetinha e ele perguntou como quebrei. Respondi que tinha caído da árvore mais alta do bairro; acho que impressionei. Assisti enquanto desenhava cuidadosamente seu nome, e perguntei qual era quando terminou.

-Josh. – Disse.

Josh e eu almoçávamos juntos todos os dias e fazíamos trabalhos juntos sempre que dava. Ajudei ele a melhorar a caligrafia e ele levou a culpa quando escrevi “PEIDO” na parede, com um marcador permanente. Cheguei a conhecer outras pessoas, mas acho que sempre soube que Josh era o único amigo de verdade.
Continuar uma amizade fora do colégio quando se tem cinco anos é bem mais difícil do que vocês lembram. No dia dos balões, nos divertimos tanto que perguntei se ele queria ir na minha casa no dia seguinte e brincar. Respondeu que sim e que traria alguns brinquedos; falei que podíamos sair pra explorar e, quem sabe, nadar no lago. Quando cheguei em casa, minha mãe disse que tudo bem ele ir. Minha alegria foi muita, até lembrar que não tinha meios de ligar pra ele. Passei o final de semana todo preocupado, achando que nossa amizade acabaria na segunda.
Quando finalmente nos vimos, fiquei aliviado de saber que ele passou pelo mesmo problema e achou graça. No meio da semana, lembramos de escrever nossos telefones em casa e entregamos os papéis um pro outro na aula. Minha mãe falou com a mãe do Josh e ficou combinado que ela pegaria nós dois na escola na sexta. Fazíamos quase o mesmo toda semana. O fato de morarmos perto só facilitou as coisas pros nossos pais, que pareciam trabalhar o dia todo.
Quando mamãe e eu nos mudamos pro outro lado da cidade, na primeira série, tive certeza que nossa amizade chegaria ao fim. Enquanto nos distanciávamos da casa em que vivêramos a vida toda, senti uma tristeza que não se aplicava só a um lugar – estava dando adeus pro meu melhor amigo. Mas Josh e eu, pra minha surpresa e alegria, continuamos próximos.
Apesar de passarmos a maior parte do tempo separados e de nos vermos só aos finais de semana, continuamos muito parecidos um com o outro ao crescer. Nossas personalidades se encaixavam, nossos sensos de humor se complementavam e acabávamos gostando das mesmas coisas assim, sem combinar. Até mesmo soávamos parecidos o suficiente pro Josh chamar minha mãe fingindo ser eu. A taxa de sucesso era até bem impressionante. Minha mãe brincava dizendo que só sabia quem era quem por causa do cabelo – ele tinha o cabelo louro escuro e liso, enquanto o meu era castanho e cacheado, como ela.
Alguém poderia pensar que o mais provável de separar dois jovens amigos estava fora do controle deles; mas acho que o início de nossa separação gradual foi minha insistência em ir até minha antiga casa procurar Boxes. No fim de semana seguinte a esse episódio, convidei Josh pra ir lá em casa, como sempre, pra manter a tradição, mas ele respondeu que não estava muito a fim. Começamos a nos ver cada vez menos a partir daí. De uma vez por semana, foi pra uma vez ao mês, e aí uma vez a cada dois meses.
Pro meu aniversário de doze anos, minha mãe deu uma festa. Não tinha feito tantos amigos assim desde que me mudei, então foi lá uma festa surpresa, já que ela não tinha ideia de quem chamar. Chamei umas poucas crianças com quem mantinha algum tipo de amizade e liguei pro Josh pra ver se ele queria vir. De primeira, disse que não sabia se podia ir, mas na véspera da festa me ligou de novo e disse que viria. Fiquei muito feliz, não o via há meses.
A festa até que foi legal. Minha maior preocupação era de Josh e os outros não se darem bem, mas até que todo mundo acabou se gostando. Josh estava surpreendentemente quieto. Disse que não trouxe presente e pediu desculpas, mas respondi que estava tudo bem. Tentei manter a conversa com ele várias vezes, mas sempre acabávamos sem assunto. Perguntei o que deu errado entre nós. Eu não entendi por que as coisas estavam tão ruins entre a gente – nunca agimos daquela maneira antes. Costumávamos andar juntos quase todos os fins de semana e nos falávamos no telefone dia sim dia não. Perguntei o que estava acontecendo. Olhou pra mim, depois de encarar os sapatos por um tempo, e simplesmente disse.

-Você foi embora.

Pouco depois disso, minha mãe me gritou da sala e disse que era hora de abrir os presentes. Forcei um sorriso e entrei na sala enquanto todos cantavam parabéns. Havia algumas caixinhas e muitos cartões, já que o resto da família morava em outros estados. A maioria eram lembrancinhas, mas lembro que o Brian me deu um brinquedo em forma de cobra que guardei por muitos anos. Minha mãe insistiu que eu lesse todos os cartões e agradecesse a cada pessoa, por que uns anos antes, no natal, destruí o papel de presente das caixas e a possibilidade de saber quem tinha mandado o quê ou que quantidade de dinheiro. Separamos os que vieram pelos correios e os que foram trazidos no dia, pros meus amigos não precisarem me ver abrindo coisas de gente que eles nem conheciam. A maioria dos cartões dos meus amigos vinha com um pouco de dinheiro, e dos familiares com bastante dinheiro.
Um dos envelopes não estava endereçado a mim, mas, por estar na pilha, acabei abrindo. O cartão tinha uma estampa de flores bem genérica na frente e parecia ter sido recebido por alguém que agora o repassava pra mim. Na verdade, até gostei da ideia por que, pra mim, cartões sempre foram algo meio bobo. Tomei cuidado pro dinheiro que achei que estivesse dentro não cair, mas a única coisa lá era a mensagem que já vem impressa no próprio cartão.

“Eu te amo.”

Quem quer que tenha me dado o cartão não escreveu nada nele, mas circulou a mensagem algumas vezes com uma caneta.
Ri um pouco e falei:

-Nossa, mãe, brigado por esse cartão tão legal.

Ela me encarou confusa e analisou o cartão. Me disse que não era dela e o passava de mão em mão entre meus amigos, procurando quem tivesse armado a brincadeira. Ninguém se manifestou, então ela disse:

-Não se preocupa, amorzinho, agora você sabe que duas pessoas te amam.

Ela prosseguiu o momento com um longo e doloroso beijo na minha testa, que transformou a graça que todos acharam em histeria pura. Todos riam muito, podia ter sido qualquer um deles, mas o Mike parecia rir mais. Pra participar da brincadeira e não ser só o alvo dela, disse a ele que só por que tinha me dado o cartão não significava que ia dar um beijinho nele também. Rimos mais e, ao olhar pro Josh, vi que finalmente sorria.

-Acho que esse foi o melhor presente, mas tem mais alguns ainda pra abrir.

Minha mãe me deu outro embrulho. Ainda sentia um resto de riso enquanto rasgava o papel de presente. Quando vi o que era, não precisei segurar o riso mais. Meu sorriso se desfez enquanto olhava pras minhas mãos.
Era um par de walkie-talkies.

-Vai, mostra pra todo mundo!

Mostrei, e todos pareceram aprovar, mas quando prestei atenção no Josh vi que estava pálido. Nos encaramos por um momento, até ele se virar e seguir de volta pra cozinha. Vi enquanto discava um número no telefone fixo. Minha mãe disse que sabia que, desde a vez que quebramos os walkie talkies antigos, não nos falávamos mais como antes. Pensou que iríamos gostar do presente. Me senti extremamente grato pela consideração dela, mas logo fui atingido pelas lembranças de um dia que eu tentava realmente esquecer.
Todo mundo estava atacando o bolo quando perguntei ao Josh pra quem ele havia ligado. Disse que não se sentia bem e pedira ao pai pra buscá-lo. Compreendi porque queria ir embora e respondi que gostaria que nos víssemos mais. Estendi um dos walkie talkie pra ele, mas ele ergueu as mãos, negando. Derrotado, disse:

-Tudo bem então, valeu por ter vindo. Espero poder te ver antes do meu próximo aniversário.

-Desculpa... Eu vou tentar ligar mais vezes. Juro. – respondeu.

A conversa morreu na porta da minha casa, enquanto esperávamos o pai dele. Olhei pro seu rosto. Parecia sentir remorso genuíno por não tentar ligar mais vezes. De repente, abriu um largo sorriso, dizendo que sabia o que me dar de presente – ia demorar, mas eu iria adorar. Falei que não precisava, nem fazia tanta questão, mas ele insistiu. Pareceu muito mais feliz e pediu desculpas por ter sido um estraga prazeres durante a tarde. Disse que andava cansado – não dormia direito. Perguntei o porquê disso, mas o pai dele já estava buzinando na calçada. Ele foi embora mas, no meio do caminho, enquanto acenava, respondeu à minha pergunta:

-Acho que to sonâmbulo.

Foi a última vez que vi meu amigo. Uns meses depois, ele desapareceu. Nas últimas semanas, minha relação com a minha mãe tem ficado meio tensa por causa de tantas perguntas que faço sobre minha infância. Normalmente, a gente nunca sabe o limite de alguma coisa até que ela quebre. Depois dessa última conversa com a minha mãe, imagino que vamos passar o resto da vida tentando refazer nossa relação. Ela se esforçou tanto pra me manter seguro, física e psicologicamente, que as paredes que ergueu pra isso acabaram mexendo com a cabeça dela. Enquanto a verdade jorrava nessa conversa, conseguia ouvir uma tremulação em sua voz que, acho, deixava bem clara o quanto a sua vida tinha sido destruída. Não acredito que conseguiremos conversar direito de novo algum dia e, ainda que haja muito que eu não saiba, já entendo bastante.
Depois do desaparecimento do Josh, os pais dele fizeram de tudo pra encontrá-lo. Desde o primeiro dia, a polícia sugeriu que contatassem todos os pais de seus amigos pra ver se alguém sabia seu paradeiro. Fizeram isso, mas, claro, ninguém tinha ideia de onde ele teria ido. A polícia não conseguiu nenhuma pista além de uma mulher desesperada que ligava toda hora implorando que comparassem o caso com um outro de perseguição que fora aberto seis anos antes.
Se a cabeça da mãe do Josh já não estava boa quando ele sumiu, ela pirou de vez com a morte da Verônica. Ela podia ter visto muita gente morrendo no hospital, mas nada é suficiente pra aplacar o choque de perder um filho. Visitava a filha todo dia quando ela estava num hospital diferente de onde ela trabalhava: uma vez antes do expediente e uma depois. No dia da morte dela, sua mãe tinha saído tarde do trabalho e, ao chegar lá, Verônica já tinha ido embora. Isso foi a gota d’água e, nos dias que seguiram, ela ficou mais e mais instável. Saía por aí gritando pelos filhos, chamando eles pra casa. O marido dela foi procurá-la algumas vezes num bairro aleatório no meio da madrugada – seminua e gritando, desesperada, pelos dois.
Por causa disso, o pai do Josh não pôde mais trabalhar fora e começou a procurar empregos em obras, que pagavam menos mas permitiam que ficasse perto de casa. Quando começaram a obra no meu antigo bairro, uns três meses depois que Verônica morreu, o pai dela se inscreveu em toda oferta de emprego que apareceu e conseguiu alguns bicos. Tinha formação suficiente pra chefiar a obra, mas trabalhava como pedreiro, zelador e o que mais aparecesse. Até mesmo mesmo serviços menores em casas, como cortar a grama e consertar portões – qualquer coisa pra poder ficar perto da esposa. Começaram então a cuidar da área perto do lago pra transformar o lugar num espaço habitável. O pai do Josh ficou com a tarefa de nivelar o terreno recém desmatado, o que garantia pelo menos algumas semanas de sustento. No terceiro dia, achou um lugar que não podia ser nivelado. Mesmo passando o maquinário, o ponto continuava mais baixo que o resto. Frustrado, desceu do trator pra estudar a área. Ele se sentiu tentado a simplesmente pôr mais terra no buraco, mas sabia que seria uma solução temporária. Trabalhou em obras tempo o suficiente pra saber que só enfraqueceria a fundação das casas, e que raízes podres de árvores grandes decompunham e formavam terra mole. Pesou as opções que tinha e decidiu fazer um buraco com uma pá pra resolver um problema que talvez não exigiria trazer uma outra máquina. Enquanto minha mãe descrevia a cena, sabia que já tinha estado lá, antes do solo ser remexido e depois.
Senti um aperto no peito.
Ele cavou um buraco de uns 30 centímetros até a pá bater em algo. Socou a terra com a pá algumas vezes, esperando moer uma possível raiz podre e desfazer o emaranhado de raízes quando a pá ficou presa. Confuso, alargou o buraco. Depois de uma meia hora de escavação, se viu parado em cima de uma caixa coberta por um lençol marrom, de mais ou menos dois metros por cinquenta centímetros. Nossa cabeça costuma se esforçar pra evitar o pior – se acreditamos o suficiente, ela irá rejeitar terminantemente toda a evidência possível pra manter intacta nossa fé no mundo.
Até aquele momento, apesar de todo o resto indicar o contrário – apesar de alguma parte e sufocada do homem entender que essa crença só servia pra mantê-lo vivo – ele acreditava, sabia, que o filho estava vivo.
O telefone tocou às seis da noite. Minha mãe sabia quem era, mas não entendia a mensagem. Mas o que ela entendeu fez com que saísse correndo na hora.

-AQUI EMBAIXO, AGORA, MEU FILHO, POR FAVOR... MEU DEUS...

Quando ela chegou lá, encontrou o pai do Josh sentado imóvel virado de costas pro buraco. Segura a pá tão firme que ela podia quebrar a qualquer momento, e encarava o céu com olhos tão frios como os de um tubarão. Não respondia a nada do que ela dizia e só reagiu quando ela tentou tirar a pá de suas mãos.
Ele abaixou os olhos lentamente e disse que não entendia. Repetiu a frase como se fossem as únicas palavras das quais lembrava. Minha mãe ainda ouviu-as sendo murmuradas várias vezes enquanto ela se aproximava do buraco.
Ela me disse que devia ter se preparado antes de encarar o buraco. Respondi que sabia o que vinha a seguir e que não precisava falar mais nada. Olhei pra ela e seu olhar era de tanta agonia que meu estômago se remexeu. Percebi que ela sabia disso por mais de dez anos e esperava jamais ter que me contar. Como resultado, jamais conseguiria achar palavras pra descrever o que viu naquela noite e, sentado a sua frente, eu era confrontado pela mesma dificuldade de articulação.
Josh estava morto. Seu rosto estava fundo, carregando uma expressão de tristeza e falta de esperança. O cheiro agressivo de podridão subia da cripta e mamãe teve de cobrir o nariz e a boca pra não vomitar. Sua pele estava ressecada, quase reptiliana, e havia um rastro de sangue seco que saíra de seu rosto e manchara a madeira ao redor. Seus olhos semi-abertos encaravam o vazio. Ela disse que não aparentava estar morto há muito tempo e consequentemente o tempo ainda não fizera o favor de apagar a dor e o terror em suas feições. Disse que o corpo parecia encará-la, a boca aberta num último grito pela ajuda que nunca chegou. O resto, no entanto, não estava visível.
Tinha alguém por cima.
Era grande e estava deitado por cima dele. Minha mãe disse que demorou pra poder interpretar o que seus olhos viam e o que a posição dos corpos significava.
Ele estivera agarrando Josh.
As pernas dos dois estavam frígidas, congeladas pela morte, mas entrelaçadas como se fossem raízes que crescem umas sobre as outras. Um braço passado por debaixo do pescoço do Josh pra que seus corpos ficassem mais próximos.
O sol surgia por detrás das árvores e fez com que alguma coisa presa na camisa do Josh reluzisse. Minha mãe se ajoelhou e cobriu o nariz com sua camisa pra sobreviver ao cheiro. Quando viu o que tinha captado a luz do sol, suas pernas fraquejaram e ela quase caiu no buraco.
Ela uma foto. Minha. Quando criança.
Ela se jogou pra trás, ofegante e trêmula, e bateu no pai do Josh, que ainda estava sentado, longe de tudo. Ela compreendeu por que ele havia ligado pra nossa casa, mas ainda não achava forças pra contar o que escondeu de todos por tantos anos. Se apoiou nas costas dele e ele falou.

-Não posso contar pra ela... pra minha mulher... nosso caçula... – Ele cortou as próprias palavras, pressionando o rosto nas mãos sujas. – Ela não aguenta...
Um tempo depois, ele levantou e caminhou trêmulo em direção à cova. Com um último soluço, entrou no caixão. Era um homem grande, mas não tão grande quanto aquele que deitava junto a seu filho. Pegou as costas de sua camisa e puxou com força – tentaria atirar aquele cara pra fora da cova com um só puxão. Mas o tecido arrebentou e o corpo caiu de novo.
-FILHO DA PUTA!

Pegou-o pelos ombros e empurrou o corpo pra longe do filho. Depois, olhou para aquele homem e tomou impulso.

-Não... Deus, não.... por favor... MEU DEUS, NÃO.

Depositou toda a força num movimento trêmulo. Puxou e levantou o cadáver e atirou-o pelo chão fora da cova. Ele e minha mãe escutaram o barulho de vidro rolando na mata. Era uma garrafa.
Ele entregou-a pra minha mãe.

Era éter.

-Ah, Josh… - Chorava – Meu filho, meu bebê. Por que tanto sangue? O que foi que ele fez contigo?
Assim que minha mãe encarou o homem, que agora deitava virado pra cima, percebeu que aquela era a pessoa que assombrou nossas vidas por mais de uma década. Imaginara-o tantas vezes, sempre amedrontador e maligno, e os gritos de dor do pai de Josh só confirmaram suas suspeitas. Vendo seu rosto, no entanto, pensou que não era a face que imaginara. Era só um homem.
Sua expressão, congelada, parecia até serena. Os cantos dos lábios estavam levemente virados. Sorrindo. Não o sorriso que se espera de um maníaco num filme de terror; nem de um demônio. Era um sorriso de satisfação. De alegria.
De amor.
Ao correr os olhos pelo resto do corpo, viu uma ferida enorme em seu pescoço, de onde a pele tinha sido arrancada. Sentiu alívio ao ver que o sangue não era do Josh. Talvez ele tivesse sofrido menos. Mas esse alívio durou pouco. Ela cobriu a boca com uma das mãos e sussurrou, com medo de lembrar ao mundo a verdade.
-Estavam... vivos...
Josh deve ter mordido o pescoço dele pra tentar se livrar. Apesar do cara ter morrido, Josh não conseguiria sair. Comecei a chorar, pensando em quanto tempo ele aguentou até morrer finalmente.
Procurou nos bolsos do homem algum tipo de identidade, mas só achou um pedaço de papel. Nele, havia um desenho de um adulto de mãos dadas a uma criança e, do lado do garotinho, iniciais.
Minhas iniciais.
Minha esperança é de que ela não lembre essa parte da história direito, mas jamais saberei. Minha mãe escondeu o pedaço de papel em seu bolso quando viu o pai de Josh arrastando o filho pra fora da tumba. Ele murmurava que o cabelo do filho tinha sido tingido. Ela reparou nisso também – estava castanho. Suas roupas também estavam estranhas, pequenas demais pra ele. Depois de deitar o filho no chão, o pai começou a apertar os bolsos do filho, procurando alguma pista. Ouviu um barulho. Com cuidado, tirou uma folha dobrada de um dos bolsos. Deu pra minha mãe, mas ela não sabia o que era. Perguntei o que tinha no papel.
Ela me disse que era um mapa. Meu coração se despedaçou. Ele estivera terminando nosso mapa – meu presente de aniversário. Me vi desejando do fundo do coração que ele não tivesse sido raptado enquanto tentava completar o desenho – como se isso importasse agora.
Ela ouviu o pai de Josh gemer e viu-o empurrando o corpo do homem pra dentro da terra de novo. Ao caminhar de volta ao trator que o levara até lá, pôs a mão num tubo de gasolina e parou, de costas pra minha mãe.
-Vai embora.
-Me perdoa...
-Não foi culpa sua. Foi minha.
-Não pensa assim, não teve na...
-Mais ou menos um mês atrás, um cara chegou pra mim enquanto eu limpava um terreno de obra. Me perguntou se eu precisava de um dinheiro a mais. Como minha mulher não trabalha mais, aceitei. Uns moleques tinham cavado buracos no terreno dele e me ofereceu cem dólares pra consertar. Disse que iria tirar umas fotos pra seguradora primeiro, pra eu passar lá depois das cinco no dia seguinte.
Pensei que ele era um otário por que sabia que alguém iria vir limpar o terreno de qualquer jeito pras obras, mas precisava mesmo de dinheiro e concordei. Ele nem parecia ter cem dólares, mas pôs a grana na minha mão, e eu fiz. Fiquei tão exausto que nem pensei no que estava cobrindo... Não até agora. Tirei o mesmo cara de cima do meu filho. – Ele interrompeu minha mãe, sem esboçar nenhuma emoção
Ele apontou pra cova e começou a perder o controle.
-Me deu cem dólares pra enterrar ele com meu filho...
Externar aquelas palavras forçava-o a aceitar o que aconteceu. Caiu de joelhos no chão, chorando. Minha mãe não pôde pensar em mais nada pra dizer e ficou lá, em silêncio, por o que pareceu uma vida toda. Finalmente, tomou coragem e perguntou o que faria com o corpo do filho.
-Ele não vai ficar aqui, com esse monstro...
Ao ir embora e entrar no carro, ela viu uma fumaça subindo ao céu, preto no âmbar da manhã. Rezou, contra todas as expectativas, pra que os pais de Josh ficassem bem.
Saí da casa da minha mãe sem dizer mais nada. Falei que a amava e que iríamos nos falar logo, mas não sei o que logo significa pra nós. Entrei no carro e parti.
Entendo agora por que esses eventos na minha infância pararam há alguns anos. Adulto, vejo as conexões que não foram vistas por uma criança que lembra da infância como um feixe de imagens ao invés de uma sequência. Pensei no Josh. Amava-o. Ainda amo. Sinto ainda mais saudade agora que sei que jamais nos veremos. Pensei em seus pais. Em tudo que perderam e na velocidade que perderam. Não sabem da minha relação com tudo o que aconteceu, mas jamais terei coragem de olhá-los nos olhos. Pensei na Verônica. Só conheci-a na adolescência, mas naquele pouco tempo acho que realmente a amei também. Pensei em minha mãe. Tinha tentado com todas as forças me proteger. Era alguém mais forte do que eu jamais serei. Tento não pensar naquele cara e no que ele fez ao Josh por mais de dois anos.
Na maior parte do tempo penso no Josh. Às vezes desejo que ele nunca tivesse sentado na minha frente no Jardim de Infância. Que eu nunca tivesse conhecido um amigo de verdade. Às vezes gosto de pensar que ele foi pra um lugar melhor, mas é só um sonho. Sei que o mundo é um lugar cruel e que as pessoas só pioram. Não haveria justiça pro meu amigo, nenhuma chance de luta, nem vingança. Já passou pra quase todo mundo, mas eu ainda lembrarei.
Sinto sua falta, Josh. Sinto muito por ter me escolhido e sempre lembrarei com carinho da nossa amizade.
Fomos exploradores.
Vivemos aventuras.
Éramos amigos.

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