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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

A Música de Erich Zann - H.P Lovecraft



Tenho examinado mapas da cidade com o maior cuidado, mas jamais reencontrei a Rue d’Auseil. E não foram apenas mapas modernos, pois sei que os nomes mudam. Pelo contrário, pesquisei também, profundamente, em meio ao que há de mais antigo no lugar e explorei pessoalmente cada região, qualquer que fosse o nome, que porventura pudesse evocar a rua que conheci como Rue d’Auseil. No entanto, apesar de tudo, prevalece o fato humilhante de que não consigo achar a casa, a rua ou sequer a localidade onde, durante os últimos meses de uma miserável vida de estudante de metafísica na universidade, ouvi a música de Erich Zann.

Não me espanto de que minha memória falhe, pois minha saúde – física e mental – ficou gravemente comprometida durante o período em que residi na Rue d’Auseil, e me lembro de nunca ter levado nenhum de meus poucos conhecidos até lá. Mas que eu não possa encontrar de novo o lugar é que é singular e estarrecedor, pois ficava a meia hora de caminhada da universidade, além de que se distinguia por algumas peculiaridades que ninguém que tivesse estado lá esqueceria facilmente. Jamais conheci alguém que tivesse visto a Rue d’Auseil.

A Rue d’Auseil ficava do outro lado de um rio escuro, guarnecido por barracões de tijolos com janelas baças, sobre o qual se estendia uma ponte maciça de pedra negra. Sombras eternas pairavam sobre o rio, como se a fumaça das fábricas vizinhas obstruísse perpetuamente a luz do sol. O rio recendia a odores malignos que jamais senti noutros lugares e que talvez possam algum dia me ajudar a encontrá-lo, já que eu os reconheceria de pronto. Para além da ponte viam-se ruas estreitas calçadas de pedras e protegidas por parapeitos; e então vinha o aclive, no início suave, depois incrivelmente acentuado quando começava a Rue d’Auseil.

Nunca vi nenhuma rua tão estreita e íngreme quanto a Rue d’Auseil. Era quase um precipício, inviável para qualquer veículo, consistindo, em mais de um ponto, de lanços de degraus e, no topo, terminando num muro alto coberto de hera. Seu calçamento era irregular, às vezes lajes de pedra, às vezes fragmentos de pedra e às vezes terra nua de onde despontavam tufos de vegetação cinza-esverdeada. As casas – de telhados pontudos – eram todas incrivelmente antigas e, em desordem, inclinavam-se para trás, para a frente ou para os lados. Não raro um par oposto, inclinando-se para diante, quase se tocava por cima da rua, formando um arco e certamente impedindo que parte da luz chegasse até o chão. Havia uns poucos passadiços ligando casas de ambos os lados da rua.

Os moradores dessa rua me impressionavam particularmente. No início, pensei que fosse por se tratar de gente silenciosa e reservada, mas depois concluí que era por serem todos muito velhos. Não sei como fui viver em tal recanto, mas pode ser que não foi por vontade própria que me mudei para lá. Tinha estado a habitar em muitos lugares pobres, sendo sempre despejado por falta de dinheiro, até que um dia fui parar naquela casa decadente da Rue d’Auseil, gerenciada pelo paralítico Blandot. Era a terceira casa a contar do topo da rua e, de longe, a mais alta de todas.

Meu quarto ficava no quinto piso – o único quarto ocupado, já que a casa estava quase vazia. Na noite em que cheguei, ouvi uma estranha música proveniente do sótão sobre minha cabeça, e no dia seguinte inquiri o velho Blandot a respeito. Ele me falou de um velho tocador de viola alemão, um sujeito estranho, mudo, que assinava o nome de Erich Zann e que se apresentava à noite na orquestra de um teatro barato, acrescentando que o desejo de tocar à noite, após o seu retorno do teatro, era o motivo pelo qual Zann escolhera aquele quarto no sótão alto e isolado, cuja solitária janela de empena era o único ponto da rua a partir do qual se podia avistar, por cima do muro, o declive e o panorama além dele.

Desde então, ouvi Zann todas as noites e, embora ele me mantivesse desperto, a esquisitice de sua música me fascinava. Conhecendo pouco dessa arte, ainda assim eu estava certo de que nenhuma de suas modulações tinha qualquer relação com a música que eu ouvira antes e concluía que ele era um compositor de gênio altamente original. Quanto mais eu ouvia, mais ficava enleado, até que depois de uma semana resolvi conhecer o homem pessoalmente.

Certa noite, quando ele retornava do trabalho, interceptei Zann no corredor e lhe disse que gostaria de conhecê-lo e de estar com ele enquanto ele tocava. Era um indivíduo pequeno e recurvado, vestindo roupas surradas – de olhos azuis, face grotesca de sátiro e uma calva acentuada –, que ao ouvir minhas primeiras palavras se mostrou zangado e amedrontado. Minha camaradagem franca, no entanto, logo o abrandou, e ele, com relutância, me fez sinal para que o seguisse através da escada escura, rangente e infirme que conduzia ao sótão. Seu quarto, um dos dois únicos que havia no sótão de teto anguloso, ficava no lado oeste, voltado para o muro alto que limitava a extremidade superior da rua. Suas dimensões eram bastante amplas e pareciam mais amplas ainda devido à desarrumação e à nudez do lugar. De mobília havia apenas um catre de ferro, um lavatório ensebado, uma mesa pequena, uma estante grande, um suporte de ferro para partituras e três cadeiras de desenho antiquado. Folhas de notação musical jaziam espalhadas pelo soalho. As paredes eram de tábuas nuas e provavelmente nunca teriam conhecido nenhum emboço, ao passo que a abundância de poeira e teias de aranha fazia o lugar parecer mais deserto do que habitado. Por certo o mundo de beleza de Erich Zann existia num distante cosmos da imaginação.

Assinalando para que eu me sentasse, o mudo fechou a porta, fixou a grande trava de madeira e acendeu uma vela para aumentar a claridade da que trouxera consigo. Então retirou sua viola do estojo bichado e, segurando-a, sentou-se na cadeira menos desconfortável. Não utilizou o suporte para partituras, mas, sem pedir opinião e tocando de memória, me enlevou por mais de uma hora com acordes que eu nunca ouvira antes – acordes que deviam ser de sua própria invenção. Descrever sua exata natureza é impossível para alguém não versado em música. Constituíam uma espécie de fuga, com passagens recorrentes de um teor cativante, mas que para mim eram notáveis devido à ausência de quaisquer das notas que eu escutara embaixo, em meu quarto, noutras ocasiões.

Dessas notas arrebatadoras eu me lembrava e não raro as cantarolava ou assobiava com desajeito para mim mesmo, de modo que, quando afinal o músico baixou o arco, lhe solicitei que executasse algumas delas. Mal escutou meu pedido, a face enrugada de sátiro perdeu a placidez enfastiada que exibira durante a execução e pareceu externar a mesma curiosa mistura de raiva e medo que eu notara quando abordei o velho pela primeira vez. Por um momento estive inclinado a usar de persuasão, levando em conta os possíveis caprichos da senilidade, e até tentei elevar o estranho ânimo de meu anfitrião assobiando alguns dos acordes que tinha ouvido na noite anterior. Mas não persisti nesse intuito por mais que um instante, pois, quando o musicista mudo reconheceu a melodia, sua face assumiu de imediato uma expressão distorcida que não se pode descrever, e a sua mão alongada, ossuda e fria, se estendeu para fechar minha boca e silenciar a imitação grosseira. E não ficou só nisso: demonstrou ainda sua excentricidade lançando um olhar atônito em direção à janela que uma cortina recobria, como se receoso de algum intruso – um olhar duplamente absurdo, desde que o sótão, elevando-se acima de todos os telhados adjacentes, era inacessível, sendo a janela o único ponto na rua íngreme a partir do qual, conforme o recepcionista me dissera, se podia enxergar por cima do muro no topo.

O olhar do velho trouxe-me à lembrança a observação de Blandot, e por um gesto de capricho senti um ímpeto de olhar para o largo e vertiginoso panorama de telhados que o luar banhava e para as luzes da cidade que brilhavam lá adiante, as quais, dentre todos os moradores da Rue d’Auseil, somente esse músico ranzinza podia ver. Dei um passo em direção à janela e teria aberto as indescritíveis cortinas se, com uma recrescida fúria de pavor, o hóspede mudo não se lançasse sobre mim, desta vez movendo a cabeça em direção à porta enquanto lutava nervosamente, com ambas as mãos, para me empurrar até ela. Agora, bastante aborrecido com meu anfitrião, ordenei-lhe que me soltasse e disse-lhe que sairia imediatamente. Ele me soltou e, quando viu que eu me aborrecera e me ofendera, sua própria raiva pareceu amainar. Voltou a me segurar com força, mas desta vez de um modo amigável, conduzindo-me a uma cadeira e então, ansiosamente, passando para o outro lado da mesa, onde começou a escrever algumas palavras com um lápis, num árduo francês de estrangeiro.

A nota que ele afinal me entregou constituía-se num pedido de tolerância e perdão. Zann argumentou que estava velho, solitário, e era afligido por medos insólitos e desordens nervosas ligadas à sua música e a outras coisas. Ele apreciara meu interesse em ouvir sua música e desejava que eu retornasse e não me importasse com suas excentricidades. Mas ele não podia tocar para os outros aqueles acordes inusitados e menos ainda ouvir alguém assobiá-los, assim como não podia suportar que alguém mexesse no que quer que fosse em seu quarto. Ele não tivera idéia, até nossa conversa no corredor, de que em meu quarto eu podia ouvi-lo tocar e então me perguntou se eu não podia pedir a Blandot que me transferisse para um quarto mais embaixo, onde não o ouvisse durante a noite. Estava disposto – conforme escreveu – a arcar com o acréscimo no preço do aluguel.

Enquanto decifrava o francês execrável, comecei a me sentir mais complacente com o velho. Tornara-se vítima de distúrbios psíquicos e nervosos, tal como eu mesmo, e meus estudos metafísicos me ensinaram a ser bondoso. No silêncio, um som começou a vir da janela – talvez o vento noturno tivesse feito os vidros estalarem, e por alguma razão eu me assustei quase tanto quanto Erich Zann. Ao fim da leitura, apertei-lhe a mão e parti amigavelmente.

No dia seguinte Blandot me arranjou um cômodo mais caro no terceiro pavimento, entre os aposentos de um velho agiota e o apartamento de um respeitável estofador. Não havia ninguém no quarto pavimento.

Não demorou muito para eu descobrir que a ânsia de Zann por minha companhia não era tão grande quanto me parecera na ocasião em que me convenceu a me mudar do quinto piso. Não me pediu que o visitasse e, quando eu o procurei, me pareceu pouco à vontade e tocou sem emoção. Isso sempre acontecia à noite, pois durante o dia ele dormia e não recebia ninguém. Minha simpatia por ele não cresceu, conquanto o quarto no sótão e a música fantástica parecessem exercer sobre mim um estranho fascínio. Senti um desejo inexplicável de olhar, através daquela janela e por cima do muro, para o declive invisível e para os telhados e cumeeiras resplandecentes que haveria além dele. Numa ocasião, cheguei a subir ao sótão durante as horas do teatro, enquanto Zann não se achava no quarto, mas encontrei a porta fechada.

Só o que eu podia ouvir era a música noturna do velho mudo. No início, eu subia nas pontas dos pés até o quinto piso; depois adquiri coragem para galgar a escada rangente até o sótão no alto. Ali, no vestíbulo estreito, aquém da porta trancada, com o buraco da fechadura tapado, eu freqüentemente ouvia sons que me enchiam de um medo indefinido – medo de espantos vagos e mistérios latentes. Não porque os sons em si fossem terríveis – o que decerto não eram –, mas porque continham vibrações que sugeriam qualquer coisa de alheia a este planeta e porque, em certos intervalos, assumiam qualidades sinfônicas que dificilmente eu podia supor fossem produzidas por um único executante. Certamente Erich Zann era um gênio de força selvagem. Com o passar das semanas, a música se tornou mais selvagem, enquanto o velho musicista ia adquirindo um desleixo e uma furtividade lamentáveis de se ver. Agora, invariavelmente, se recusava a me receber e se esquivava de mim sempre que nos deparávamos nas escadas.

Então, certa noite, escutando através da porta, ouvi o ganido de uma viola ululante vibrar por entre uma babel caótica de sons, um pandemônio que me faria duvidar de minha sanidade abalada, não viesse de trás daquela porta fechada uma abominável prova de que o horror era real: o grito aterrador e inarticulado que só um mudo é capaz de emitir e que brota somente em momentos de medo e de angústia os mais terríveis. Bati insistentemente na porta, mas não tive resposta. Em seguida, aguardei, no vestíbulo escuro, a tremer de frio e de medo, até que captei os débeis esforços do músico para se levantar do soalho apoiando-se numa cadeira. Supondo que ele recuperava a consciência após um desmaio, voltei a bater na porta, ao mesmo tempo em que dizia que era eu quem chamava. Percebi que Zann cambaleou até a janela, fechou as rótulas e baixou a guilhotina; depois, ouvi-o claudicar até a porta, que abriu para minha passagem. Desta vez, mostrou real prazer em me ver, pois seu semblante conturbado se iluminou de alívio quando ele me puxou pelo casaco tal como uma criança se agarra às saias de sua mãe.

Tremendo pateticamente, o velho me fez sentar numa cadeira e ocupou uma outra, ao lado da qual jaziam a viola e o arco largados no chão. Permaneceu imóvel por algum tempo, balançando a cabeça, mas dando a paradoxal impressão de que ouvia intensa e medrosamente. Em seguida, pareceu satisfeito e, passando para a cadeira do outro lado da mesa, rabiscou uma nota breve, que me entregou, e se debruçou de novo, voltando a escrever rápida e incessantemente. Na nota, implorava-me que, por misericórdia e para sanar minha curiosidade, eu aguardasse enquanto ele preparava, em alemão, um relato completo de todas as maravilhas e horrores que o acossavam. Esperei, e o lápis do mudo correu.

Foi talvez uma hora mais tarde, enquanto eu ainda esperava e enquanto o velho músico empilhava folhas e mais folhas de papel escrito, que eu vi Zann se assustar como se ao impacto de um horrível sobressalto. Claramente, ele olhava para a janela coberta pelas cortinas e escutava entre tremores. Então supus eu mesmo ouvir algum som, embora não fosse nada horrível, mas, antes, uma nota musical lenta, distante e inusitada, a sugerir que alguém tocava numa das casas vizinhas ou nalgum recanto para além do muro alto por cima do qual eu jamais pudera olhar. O efeito sobre Zann foi terrível, pois que, deixando cair o lápis, se ergueu de súbito, agarrou a viola e começou a encher a noite de uma melodia selvagem que eu jamais ouvira de seu arco a não ser através da porta trancada.

Seria inútil descrever o modo de tocar de Erich Zann naquela noite pavorosa. Era mais horrível do que qualquer coisa que eu já lhe tinha escutado, porque agora eu podia ver a expressão de seu rosto e podia notar que o motivo era o medo mais agudo. Ele tentava produzir barulho, afastar qualquer coisa ou afogar qualquer coisa; o quê? – eu não podia imaginar, por mais apavorante que o supusesse. A execução se tornou fantástica, realmente histérica, e no entanto conservava algo das qualidades do gênio supremo de que eu sabia possuidor aquele homem velho. Reconheci os acordes – era, selvagemente, uma dança húngara popular nos teatros, e me dei conta de que era a primeira vez que eu ouvia Zann executar a obra de outro compositor.

Mais alto e mais alto, mais selvagem e mais selvagem, cresceu o uivo e o lamento daquela viola desesperada. Uma perspiração transbordante recobria o músico, que se contorcia como um macaco, sempre a olhar em desvario para a janela coberta. Em seus acordes frenéticos eu quase podia ver as sombras de sátiros e bacantes dançando e rodopiando numa agitação insana e abissal de nuvens e fumaça e relâmpagos. E então pensei ouvir uma nota mais aguda, mais firme, que não provinha da viola – uma nota calma, deliberada, propositada e zombeteira que vinha de longe, do oeste.


Nesse instante as rótulas começaram a chacoalhar ao vento ululante da noite, o qual pareceu elevar-se lá fora como se em resposta à música louca de dentro. Uivando, a viola de Zann se superava ao emitir sons que nunca pensei uma viola pudesse emitir. As rótulas chacoalharam mais alto, soltaram-se e passaram a bater contra a janela. Então o vidro se partiu sob os impactos persistentes, e o vento gelado penetrou no cômodo, fazendo oscilar a chama das velas e agitando as folhas de papel onde Zann dera início à narrativa de seu horrível segredo. Olhei para Zann e vi que estava fora de si. Seus olhos azuis se arregalavam, vítreos e desvairados, e a execução frenética pôs em curso uma orgia cega, mecânica, irreconhecível, que pena alguma poderá sequer sugerir.

Uma lufada súbita, mais forte que as outras, arrebatou o manuscrito e o atirou em direção à janela. Saltei desesperado no encalço das folhas, mas elas escaparam ao meu alcance através dos vidros partidos. Lembrei-me, então, de meu velho anseio de olhar pela janela, a única na Rue d’Auseil de que se podia enxergar a encosta para além do muro e a cidade que se estendia lá embaixo. Estava muito escuro, mas as luzes da cidade sempre brilhavam, e minha expectativa era avistá-las em meio ao vento e à chuva. No entanto, quando olhei pela janela daquele sótão altíssimo – olhei enquanto as velas tremulavam e a viola insana ululava ao vento noturno –, não vi cidade alguma se estender lá embaixo e nenhuma luz amigável brilhar nas ruas familiares, mas apenas a escuridão do espaço ilimitado, espaço inimaginável que o movimento e a música punham vivo, o qual não se assemelhava a nada na terra. E, enquanto permaneci a olhar, imerso no terror, o vento apagou ambas as velas daquela mansarda pinacular, imergindo-me numa treva bruta e impenetrável, com o caos e o pandemônio à minha frente e a loucura demoníaca daquela viola atrás de mim.

Recuei aos tropeços na treva, sem condições de acender qualquer luz, chocando-me contra a mesa, derrubando uma cadeira e finalmente alcançando às apalpadelas o lugar onde a escuridão urrava com a música estridente. Salvar a mim mesmo e a Erich Zann eu poderia ao menos tentar, não obstante as forças que se me opunham. Numa ocasião senti como se uma coisa gelada roçasse por mim e gritei, mas meu grito não podia superar o som da abominável viola. Súbito, em meio à treva, o infatigável arco bateu em mim, e então percebi que estava perto do violista. Tateei à minha frente, encontrei as costas da cadeira de Zann e então procurei seu ombro e o agitei, num esforço de trazê-lo de volta à razão.

Ele não me respondeu, e a viola incansável continuou a zunir. Levei a mão até sua cabeça, cujos acenos mecânicos não havia como parar, e gritei ao seu ouvido que precisávamos fugir das coisas ignotas da noite. Mas ele não me respondeu nem amenizou o frenesi de sua música indescritível; enquanto isso, por todo o sótão estranhas correntes de vento pareciam dançar na treva e no caos. Quando minha mão tocou em sua orelha, estremeci, embora sem saber por que – sem saber por que, até que senti a face imóvel, a face rígida e sem respiração, cujos olhos vidrados se arregalavam em vão no vazio. E então, por um milagre, achando a porta e a grande trave de madeira, me arrastei doidamente para fora, fugindo à coisa de olhos vítreos que havia na escuridão e do uivo espectral daquela viola maldita cuja força cresceu enquanto eu me arrastava.

Saltar, flutuar, voar por aqueles infindáveis degraus abaixo através da escuridão da casa; correr desvairadamente pelas ruas estreitas, íngremes e antigas, feitas de degraus e cercadas de casas decadentes; pular sobre os degraus e as pedras do calçamento em direção às ruas baixas e ao rio pútrido e profundo, ofegar através da grande ponte negra em direção às ruas mais largas e saudáveis e aos bulevares conhecidos, tudo isso são terríveis impressões que sobrevivem em mim. Tudo o que lembro é que não havia vento nem lua e que todas as luzes da cidade tremulavam.

A despeito de minhas buscas e investigações mais diligentes, jamais consegui achar a Rue d’Auseil. Mas não o lamento de todo: nem isso nem a perda, em abismos inimagináveis, das folhas de papel que, numa escrita cerrada, poderiam ter explicado a música de Erich Zann.

A Cor Que Caiu do Espaço - H.P Lovecraft



A oeste de Arkhan as colinas se erguem intocadas, e há vales com florestas profundas que nenhum machado jamais tocou. Há talvegues escuros e estreitos onde as árvores se inclinam fantasticamente e onde estreitos córregos fluem lentamente sem jamais terem vislumbrado a luz do sol. Nas suaves elevações existem fazendas, antigas e pedregosas, com chalés baixos, largos e cobertos de musgo lucubrando eternamente antigos segredos da Nova Inglaterra sob o abrigo de grandes encostas; mas estes estavam vazios agora, as largas chaminés desmoronando e as paredes de tábuas sobrepostas curvando perigosamente sob baixos telhados gambrel.

O antigo povo se foi, e forasteiros não gostam de viver lá. Franco-canadenses tentaram, italianos tentaram, e os polacos vieram e partiram. Não é por causa de nada que pode ser visto ou ouvido ou tocado, mas devido a algo que é imaginado. O local não é bom para a imaginação, e não traz sonhos tranquilos à noite. Deve ser isto que mantém afastados os forasteiros, pois o velho Ammi Pierce nunca contou a eles nada do que se recorda dos dias estranhos. Ammi, cuja cabeça tem estado um pouco esquisita há anos, é o único que ainda lembra ou mesmo fala dos dias estranhos; e ele ousa fazê-lo por sua casa ser tão próxima aos campos abertos e às estradas em uso ao redor de Arkham.

Existira outrora uma estrada sobre as colinas e através dos vales, que seguia diretamente por onde hoje é o ermo maldito; mas as pessoas pararam de utilizá-la e uma nova estrada foi feita com ampla curva em direção ao sul. Traços da antiga estrada ainda podem ser encontrados entre os arbustos do ambiente selvagem que se reconstituía, e alguns deles sem dúvida permaneceriam mesmo quando metade dos vales fosse inundada para o novo reservatório. Então as florestas escuras serão derrubadas e a ermo maldito adormecerá bem abaixo das águas azuis cuja superfície irá refletir o céu e ondular sob o sol. E os segredos dos dias estranhos serão um com os segredos das profundezas; um com a sabedoria oculta do antigo oceano, e todo o mistério da terra primitiva.

Quando eu adentrei as colinas e vales para prospectar para o novo reservatório me disseram que o lugar era maligno. Eles me disseram isto em Arkham, e por ela ser uma cidade muito antiga cheia de lendas de bruxas eu pensei que o mal deveria ser algo que as avós sussurravam às crianças através dos séculos. O nome “ermo maldito” me pareceu bastante estranho e teatral, e eu fiquei curioso para saber como veio a fazer parte do folclore de um povo Puritano. Então eu vi pessoalmente o escuro emaranhado de talvegues e declives a oeste, e parei de pensar em qualquer coisa além de seu próprio antigo mistério. Era manhã quando o vi, mas sombras sempre se esgueiravam por lá. Havia silêncio demais nos escuros vales entre eles, e o solo era macio demais com o musgo úmido e a forração de infinitos anos de apodrecimento.

Nos espaços abertos, principalmente ao longo da linha da antiga estrada, havia pequenas fazendas no lado das colinas; algumas vezes com todas as construções em pé, algumas vezes com apenas uma ou duas, e outras com apenas uma solitária chaminé ou porão. Ervas-daninhas e arbustos espinhentos reinavam, e coisas selvagens furtivas estrepitavam na vegetação rasteira. Sobre tudo existia um ar de inquietude e opressão; um toque do irreal e do grotesco, como se algum elemento vital da perspectiva ou do chiaroscuro estivesse errado. Eu não me surpreendi que os forasteiros não permanecessem, pois esta não era uma região na qual dormir. Era parecida demais com uma paisagem de Salvator Rosa; muito parecida com alguma xilogravura proibida em uma história de terror.

Mas mesmo tudo isso não era tão ruim quando o ermo maldito. Eu soube disso no momento em que cheguei a ele no fundo de um vale espaçoso; pois nenhum outro nome poderia descrever tal coisa, ou qualquer outra coisa se encaixaria em tal nome. Era como se o poeta tivesse cunhado a frase ao ter visto esta região única. Deveria ser, pensei quando a vi, o resultado de um incêndio; mas porque nada novo jamais crescera nestes cinco acres de desolação cinzenta que se espalhava aberto sob o céu como um grande ponto corroído por ácido nas florestas e campos? Ficava principalmente ao norte da linha da antiga estrada, mas invadia um pouco o outro lado. Eu senti uma estranha relutância em me aproximar, e o fiz finalmente porque meu trabalho me lavava através e além dele. Não havia vegetação de nenhum tipo naquela ampla vastidão, mas apenas uma fina poeira cinzenta ou cinzas que nenhum vento parecia jamais espalhar. As árvores próximas a ele eram doentias e mal desenvolvidas, e muitos troncos mortos estavam em pé ou caído apodrecendo na orla. Enquanto eu atravessava apressadamente vi os tijolos e pedras caídos de uma antiga chaminé e porão à minha direita, e a cavernosa boca escura de um poço abandonado cujos vapores estagnados pregavam estranhas peças com os tons da luz do sol. Mesmo a elevação longa, escura e cheia de árvores além parecia bem-vinda em comparação, e eu não me mais me assombrei com os murmúrios assustados do povo de Arkham. Não havia casa ou ruína próximas; mesmo nos dias antigos o lugar deve ter sido solitário e remoto. E ao crepúsculo, temendo passar novamente por aquele ponto agourento, eu tomei o caminho mais longo e tortuoso para a cidade através da estranha estrada ao sul. Eu desejei vagamente que algumas nuvens se aglomerassem, pois um estranho acanhamento com relação aos profundos vazios celestes acima havia invadido minha alma.

Ao anoitecer eu perguntei ao antigo povo em Arkham sobre o ermo maldito e o que se queria dizer com a frase “dias estranhos” a qual tantos evasivamente resmungavam. Eu não pude, contudo, obter nenhuma boa resposta exceto que todo o mistério era muito mais recente do que eu imaginara. Não era uma questão de velhas lendas, afinal, mas algo que aconteceu durante a vida daqueles que falavam. Acontecera nos anos oitenta, e a família desaparecera ou fora morta. Quem falava não era exato; e porque todos me diziam para não prestar atenção às histórias loucas do velho Ammi Pierce eu o procurei na manhã seguinte, tendo ouvido que ele morava sozinho no antigo e instável chalé que ficava onde as árvores começam a se tornar numerosas. Era um lugar aterrorizantemente antigo, e havia começado a exalar o débil odor miasmal que se agarra ao redor de casas que permaneceram de pé por tempo demais. Apenas com batidas persistentes na porta eu pude despertar o idoso, e quando ele timidamente abriu a porta eu pude perceber que ele não estava feliz em me ver. Ele não era tão frágil quanto eu esperava; mas seus olhos pendiam de uma forma curiosa, e sua vestimenta mal cuidada e barba branca faziam-no parecer bastante cansado e abatido.

Não sabendo a melhor forma como ele poderia ser levado a começar suas histórias eu inventei um assunto de negócios; contei a ele sobre minha prospecção e fiz perguntas vagas sobre o distrito. Ele era bem mais inteligente e mais cultodo que eu havia sido levado a imaginar e antes que eu percebesse ele já havia entendido tanto sobre o assunto quanto qualquer outro homem com quem eu conversara em Arkham. Ele não era como os outros rústicos que eu havia conhecido nas seções onde os reservatórios ficariam. Dele não partiram protestos com relação às milhas de antigas florestas e fazendas que seriam obliteradas, embora talvez tivesse havido se a casa dele não estivesse fora dos limites do futuro lago. Alívio era tudo que ele mostrava; alívio com a sina dos antigos vales escuros através dos quais ele vagara durante toda a vida. Eles ficariam melhores sob a água agora – melhores sob a água, desde os dias estranhos. E com esta introdução sua voz rouca ficou mais baixa e seu corpo pendeu para frente e seu indicador direito começou a apontar de forma trêmula e impressionante.

Foi então que ouvi a história, e enquanto a voz irregular seguia arranhando e murmurando eu estremeci vezes e vezes apesar do dia de sol. Frequentemente eu tive que tirar o narrador de divagações, ampliar pontos científicos que ele conhecia apenas a partir de esvaecentes memórias-de-papagaio da falação de professores, ou preencher lacunas onde seu senso de lógica e continuidade falhava. Quando ele terminou não me admirava que sua mente tenha perdido um pouco a razão ou que o povo de Arkham não falasse muito do ermo maldito. Eu me apressei a retornar a meu hotel antes do pôr-do-sol, não querendo que as estrelas surgissem sobre minha cabeça em aberto; e no dia seguinte retornei a Boston para desistir da minha posição. Eu não poderia ir àquele obscuro caos das antigas florestas e elevações novamente ou encarar outra vez aquele ermo maldito onde o poço negro de abria profundamente ao lado dos tijolos e pedras caídos. O reservatório seria construído logo e todos aqueles antigos segredos estarão a salvo para sempre sob as braças de água. Mas mesmo então eu não acredito que gostaria de visitar aquela região à noite – ao menos não quando as sinistras estrelas estiverem aparecendo; e nada poderia me convencer a tomar a nova água da cidade de Arkham.

Tudo começou, o velho Ammi disse, com o meteorito. Antes daquele tempo não havia lendas fantásticas desde o julgamento das bruxas, e mesmo então estas florestas do oeste não eram temidas a metade do que a pequena ilha no Miskatonic onde o demônio manteve corte ao lado de um curioso altar solitário mais antigo que os Índios. Estas não eram florestas assombradas, e suas fantástica escuridão crepuscular não era terrível até os dias estranhos. Então chegou aquela nuvem branca ao meio-dia, aquela sequência de explosões no ar, e aquele pilar de fumaça do vale bem dentro da floresta. E à noite toda Arkham ouvira sobre a grande rocha que caiu do céu e alojou-se no solo ao lado do poço na propriedade de Nahum Gardner. Essa era a casa que ficava aonde o ermo maldito veio a ser – a limpa e organizada casa branca de Nahum Gardner entre seus férteis jardins e pomares.

Nahum fora à cidade contar às pessoas sobre a pedra, e parou na casa de Ammi Pierce no caminho. Ammi tinha então quarenta anos, e todas as coisas inusitadas ficaram muito fortemente fixadas em sua mente. Ele e sua esposa acompanharam três professores da Universidade Miakatonic que se apressaram na manhã seguinte para ver o estranho visitante do espaço estelar desconhecido, e se perguntaram porque Nahum dissera que era tão grande no dia anterior. Ele encolheu, Nahum disse enquanto apontava o grande monte amarronzado acima da terra partida e grama chamuscada perto do arcaico poço que ficava em seu jardim da frente; mas os sábios homens responderam que pedras não encolhem. Seu calor se mantinha persistentemente, e Nahum declarou que ele brilhara levemente à noite. Os professores a testaram com um martelo de geólogo e descobriram que era estranhamente macio. Era, na verdade, tão macio que parecia quase de plástico; e eles rasparam ao invés de lascarem uma amostra para levar de volta à universidade para testes. Eles o levaram em um velho balde emprestado da cozinha de Nahum, pois mesmo um pequeno pedaço se recusava a esfriar. Na viagem de volta eles pararam no Ammi para descansar, e pareceram pensativos quando a Sra. Pierce afirmou que o fragmento estava diminuindo e queimando o fundo do balde. De fato não era grande, mas talvez eles tenham pegado menos do que imaginavam.

O dia após isso – tudo isto ocorrera em junho de 82 – os professores se bandearam novamente em grande excitação. Quando passaram pela casa de Ammi contaram as coisas inusitadas que a amostra havia feito, e como ela sumiu completamente quando a colocaram em um béquer de vidro. O béquer se fora também, e os sábios comentavam sobre a estranha afinidade da rocha por silicone. Ela havia agido de forma bastante inacreditável naquele laboratório bem ordenado; não fazendo absolutamente nada e não mostrando nenhum gás ocluído quando aquecido com carvão, sendo completamente negativo na pérola de bórax e logo se provando ser absolutamente não-volátil em qualquer temperatura produzível, incluindo aquela do maçarico de oxi-hidrogênio. Em uma bigorna ele parecia altamente maleável, e no escuro sua luminosidade era bem marcada. Teimosamente se recusando a esfriar, logo pôs a universidade em um estado de verdadeiro excitamento; e quando sob aquecimento à frente do espectroscópio mostrou faixas coloridas como nenhuma das cores conhecidas do espectro normal houve muito falatório sobre novos elementos, propriedades ópticas bizarras e outras coisas que homens da ciência perplexos costumam dizer quando confrontados pelo desconhecido.

Quente como era, eles o testaram em um cadinho com todos os devidos reagentes. Água não fez nada. Ácido hidroclorídrico da mesma forma. Ácido nítrico e mesmo água régia meramente sibilaram e respingaram contra sua tórrida invulnerabilidade. Ammi tinha dificuldade em relembrar todas estas coisas, mas reconheceu alguns solventes quando os mencionei na ordem normal de uso. Havia amônia e soda cáustica, álcool e éter, nauseante dissulfeto de carbono e uma dúzia de outros; mas embora o peso estivesse diminuindo constantemente com o passar do tempo, e o fragmento parecesse estar esfriando levemente, não havia alteração nos solventes que demonstrasse que haviam atacado a substância. Era um metal, contudo, sem dúvida. Era magnético, por exemplo; e após sua imersão em solventes ácidos surgiu o que pareceu serem leves traços do padrão de Widmanstätten encontrados em ferro meteórico. Quando o esfriamento aumentou consideravelmente, os testes foram realizados em um vidro; e foi em um béquer de vidro que eles deixaram todos os pedaços feitos a partir do fragmento original durante o trabalho. Na manhã seguintes tanto os pedaços quanto o béquer haviam sumido sem deixar traço, e apenas uma marca chamuscada marcava o local na prateleira de madeira onde haviam estado.

Tudo isto os professores contaram a Ammi quando pararam à sua porta, e mais uma vez ele foi com eles para ver o mensageiro pétreo das estrelas, embora desta vez sua esposa não o tenha acompanhado. Ele tinha agora certamente diminuído, e mesmo os sóbrios professores não podiam duvidar da verdade do que haviam visto. Tudo ao redor da minguante informe massa marromperto do poço era um espaço vazio, exceto onde a terra havia cedido; e embora tenha tido uns bons sete pés de diâmetro no dia anterior, tinha agora mal-e-mal cinco. Ele continuava quente, e os sábios estudaram sua superfície curiosamente enquanto retiraram outro pedaço, maior, com o martelo e cinzel. Eles cortaram profundamente desta vez, e enquanto eles separavam a massa menor eles viram que o núcleo da coisa não era totalmente homogêneo.

Eles haviam descoberto o que parecia ser o lado de um grande glóbulo colorido incrustado na substância. A cor, que lembrava algumas das faixas no estranho espectro do meteoro, era quase impossível de descrever; e foi apenas por analogia que eles chamaram aquilo de cor. Sua textura era lisa e brilhante, e ao ser cutucada ela pareceu ser tanto frágil quanto oca. Um dos professores deu-lha um vigoroso golpe com o martelo, e ela se partiu com um nervoso pequeno estalo. Nada foi emitido, e todos os traços da coisa desapareceram com a perfuração. Ela deixou para trás um espaço esférico vazio com cerca de três polegadas de diâmetro, e todos pensaram ser provável que outras seriam descobertas enquanto a substância que as encerrava se esvaía.

A conjectura era vã; assim, depois de uma tentativa inútil de encontrar glóbulos adicionais através de perfurações, os exploradores partiram novamente com sua nova amostra a qual se provou, contudo, tão desconcertante no laboratório quanto sua predecessora. À parte ser quase plástica, ter calor, magnetismo, uma leve luminosidade, esfriar levemente em ácidos poderosos, possuir um espectro desconhecido, se esvair no ar e atacar compostos de silicone com destruição mútua como resultado, ela não apresentou quaisquer características identificáveis; e ao fim dos testes os cientistas da universidade foram forçados a admitir que eles não podiam classificá-la. Não era nada desta terra, mas um pedaço do grande espaço exterior; e como tal dotado de propriedades exteriores e obediente a leis exteriores.

Naquela noite houve uma tempestade de raios, e quando os professores voltaram à casa de Nahum no dia seguinte eles se depararam com um amargo desapontamento. A rocha, magnética como tinha sido, devia ter alguma propriedade elétrica peculiar; pois ela tinha “puxado os raios”, como Nahum disse, com persistência singular. Seis vezes em uma hora o fazendeiro viu raios atingirem o sulco no jardim da frente, e quando a tempestade acabou nada exceto um buraco irregular sobrara perto do antigo poço, meio coberto com a terra que havia cedido. Cavar não deu frutos, e os cientistas confirmaram o fato do completo desaparecimento. A falha era total; então não havia nada mais a fazer além de retornar ao laboratório e testar novamente o esvanecente fragmento deixado cuidadosamente encerrado emchumbo. Aquele fragmento durou uma semana, ao final da qual nada de valor havia sido aprendido a partir dele. Quando se foi, nenhum resíduo ficou para trás, e com o passar do tempo os professores se sentiram não muito certos que de fato haviam visto com olhos acordados aquela críptico vestígio dos imensuráveis abismos exteriores; aquela mensagem solitária e estranha de outros universos e outros reinos da matéria, força e existência.

Como era natural, os jornais de Arkham deram grande importância ao incidente devido ao seu patrocínio universitário, e enviaram repórteres para falar com Nahum Gardner e sua família. Pelo menos um jornal diário de Boston enviou um apurador, e Nahum rapidamente se tornou um tipo de celebridade local. Ele era uma pessoa magra e amigável de aproximadamente cinquenta anos, vivendo com sua esposa e três filhos na prazerosa fazendo no vale. Ele e Ammi trocavam visitas frequentemente, assim como suas esposas; e Ammi não tinha nada a não ser elogios a ele após estes anos. Ele parecia levemente orgulhoso da atenção que seu lugar havia atraído, e falava frequentemente sobre o meteorito nas semanas seguintes. Aqueles julho e agosto foram quentes; e Nahum trabalhou pesado na fenação de seu pasto de dez acres além do Riacho de Chapman; sua barulhenta carroça deixando sulcos marcados nas sombreadas veredas entremeadas. O trabalho o cansou mais do que nos outros anos, e ele sentiu que a idade começara a afetá-lo.

Então veio o tempo da frutificação e colheita. As pêras e maçãs amadureceram lentamente, e Nahum jurou que seus pomares estavam prosperando como nunca antes. As frutas estavam crescendo a tamanho fenomenais e brilho extraordinário, e em tal abundância que barris extras foram ordenados para lidar coma futura colheita. Mas com o amadurecimento veio o doloroso desapontamento, pois de toda aquela esplêndida coleção de enganadoras delícias nem o mínimo pedaço era comível. No suave sabor das pêras e maçãs havia penetrado uma insidiosa amargueza e doentilidade, de forma que mesmo as menores mordidas provocavam uma náusea duradoura. Era o mesmo com os melões e tomates, e Nahum tristemente viu que sua safra inteira estava perdida. Rápido em conectar os eventos, ele declarou que o meteorito havia envenenado o solo, e agradeceu aos Céus que a maior parte de suas outras plantações estava no lote mais acima ao lado da estrada.

O inverno chegou cedo, e foi muito frio. Ammi via Nahum menos do que o normal e reparou que ele começou a parecer preocupado. O restante de sua família também, parecendo terem ficado mais taciturnos; e estavam longe de constantes em suas idas à igreja ou participação nos vários eventos sociais do campo. Para esta reserva ou melancolia nenhuma causa pode ser encontrada, embora todos os moradores da casa admitissem de quando em quando uma saúde piorada e uma sensação de vaga inquietação. O próprio Nahum fez a afirmação mais precisa dentre todos quando ele disse que estava perturbado com relação a certas pegadas na neve. Elas eram as usuais pegadas de inverno de esquilos vermelhos, coelhos brancos e raposas, mas o pensativo fazendeiro afirmava ver alguma coisa não muito certa sobre sua natureza e disposição. Ele nunca era específico, mas parecia pensar que elas não eram mais tão características da anatomia e hábitos de esquilos e coelhos e raposas como costumavam ser. Ammi escutava sem interesse a este falatório até que uma noite quando passou pela casa de Nahum em seu trenó voltando do Clark’s Corner. Não havia lua, e um coelho atravessou a estrada correndo, e os saltos daquele coelho eles mais longos do que Ammi ou seu cavalo gostariam. Este último, de fato, quase disparou quando forçado a parar por uma rédea firme. A partir daí Ammi deu mais respeito às histórias de Nahum, e se perguntou porque os cachorros de Gardner pareciam tão acuados e trêmulos a cada manhã. Eles tinham, como se verificou, quase perdido a vontade de latir.

Em fevereiro os meninos McGregor de Meadow Hill estavam caçando marmotas, e não longe da propriedade de Gardner eles apanharam um espécime bastante peculiar. As proporções de seu corpo pareciam levemente alteradas de alguma maneira esquisita impossível de descrever, enquanto sua face tinha uma expressão que ninguém havia visto em uma marmota antes. Os meninos ficaram genuinamente assustados e jogaram a coisa fora imediatamente, de forma que apenas histórias grotescas dele chegaram às pessoas do campo. Mas a hesitação dos cavalos próximo à casa de Nahum se tornara então uma coisa reconhecida, e toda a base para um ciclo de lendas sussurradas estava rapidamente tomando forma.

Pessoas juravam que a neve tinha derretido mais rápido ao redor da casa de Nahum do que em qualquer outro lugar, e logo no começo de março ocorreu uma estupefata discussão no armazém do Potter no Clark’s Corners. Stephen Rice havia cavalgado passando pela casa de Gardner na manhã e notado os repolhos-gambá surgindo da lama na floresta cruzando a estrada. Nunca coisas deste tamanho haviam sido vistas, e elas tinham cores estranhas que não poderiam ser descritas em palavras. Suas formas eram monstruosas e o cavalo havia resfolegado devido a um odor o qual atingira Stephen como completamente sem precedentes. Naquela tarde várias pessoas passaram por lá para ver o crescimento anormal, e todos concordaram que plantas daquele tipo nunca deveriam ter brotado em um mundo saudável. Os frutos ruins do outono anterior eram livremente mencionados, e passou de boca em boca que havia veneno no terreno de Nahum. Claro que fora o meteorito: e relembrando quão estranha os homens da universidade descobriram ser a pedra, vários fazendeiros falaram sobre o assunto com eles.

Um dia eles fizeram uma visita a Nahum; mas não tendo nenhum apreço por histórias fantásticas foram bastante conservadores com relação ao que concluíram. As plantas eram certamente estranhas, mas todos os repolhos-gambá são mais ou menos estranhos na forma e cor. Talvez algum elemento mineral da rocha tenha entrado no solo, mas ele logo seria lavado do solo. E como relação às pegadas e os cavalos assustados – certamente eram apenas falatórios do interior que um fenômeno tal como o aerólito certamente iniciaria. Não havia realmente nada para homens sérios fazer em casos de boatos desenfreados, pois rústicos supersticiosos irão dizer e acreditar em qualquer coisa. E desta forma durante todos os dias estranhos os professores ficaram de fora, desdenhosamente. Apenas um deles, quando dado dois frascos de pó para análise em um trabalho da polícia mais de um ano e meio depois, relembrou que a cor esquisita dos repolhos-gambá havia sido bem parecida com as faixas de luz anômalas apresentadas pelo fragmento de meteoro no espectrômetro da universidade, e como o frágil glóbulo encontrado incrustado na rocha vinda do abismo. As amostras nesta análise apresentaram as mesmas faixas estranhas a princípio, embora mais tarde tenham perdido esta propriedade.

As árvores floresceram prematuramente ao redor da propriedade de Nahum, e à noite eles balançavam ameaçadoramente. O segundo filho de Nahum, Thaddeus, um rapaz de quinze anos, jurou que elas balançavam também quando não havia vento; mas mesmo os rumores não levaram isso em conta. Certamente, contudo, inquietude estava no ar. A família Gardner inteira desenvolveu o hábito de ouvir furtivamente, embora não por nenhum som os quais eles pudessem conscientemente nomear. O ouvir era, de fato, um produto de momentos quando a consciência parecia meio que divagar. Infelizmente tais momentos aumentavam de semana para semana, até que se tornou fala comum que “alguma coisa estava errada com o pessoal do Nahum”. Quando as primeiras saxifragas surgiram tinham outra cor estranha; não exatamente como aquela dos repolhos-gambá, mas claramente relacionada e igualmente desconhecida a todos que a viram. Nahum levou algumas florescências a Arkham e as mostrou ao editor do Gazette, mas este dignitário não fez mais do que escrever um artigo humorístico sobre elas, no qual os temores sombrios dos rústicos foram apresentados com educada ridicularização. Foi um erro de Nahum contar a um impassivo homem da cidade sobre a maneira que as grandes e supercrescidas borboletas antíope se comportavam em conexão com estes saxifragas.

Abril trouxe uma espécie de loucura ao povo do interior, e iniciou o desuso da estrada que passava pela casa de Nahum que culminou com seu total abandono. Foi a vegetação. Todas as árvores do pomar floresceram em estranhas cores, e por todo o solo pedregoso do jardim e pasto adjacente cresceram coisas as quais apenas um botânico poderia conectar com a flora própria da região. Nenhuma cor sã e saudável poderia ser vista em qualquer lugar exceto na grama verde e na folhagem; mas em todos os lugares existiam estas variantes caóticas e prismáticas de algum tom primário enfermo e fundamental sem lugar entre as matizes conhecidas da terra. As “calções-de-holandês” se tornaram um tipo de ameaça sinistra, e as sanguinárias cresciam insolentes em suas perversões cromáticas. Ammi e os Gardners achavam que a maioria das cores tinha uma espécie de familiaridade assombrosa, e concluíram que ela lembrava um dos frágeis glóbulos dentro do meteoro. Nahum arou e semeou o pasto de dez acres no lote de cima, mas não fez nada com a terra ao redor da casa. Ele estava preparado para quase qualquer coisa agora, e se acostumara com a sensação de algo próximo a ele aguardando para ser ouvido. O fato dos vizinhos estarem evitando sua casa afetou-o mal, claro; mas teve efeito ainda pior na sua esposa. Os meninos estavam em melhor condição, por irem à escola todo dia; mas eles não podiam evitar ficarem assustados pelos rumores. Thaddeus, um rapaz especialmente sensível, foi o que mais sofreu.

Em maio vieram os insetos, e a propriedade do Nahum tornou-se um pesadelo de zumbidos e rastejares. A maioria das criaturas não parecia muito comum em seus aspectos e movimentos, e seus hábitos noturnos contradiziam toda as experiências anteriores. Os Gardner desenvolveram o hábito de observar à noite – olhar em todas as direções aleatoriamente por alguma coisa – eles não conseguiam dizer o que. Foi então que eles admitiram que Thaddeus estava certo com relação ás árvores. A Sra. Gardner foi a próximas a vê-las da janela enquanto observava os inchados ramos de um bordo contra o céu enluarado. Os ramos certamente se moveram, e não havia vento. Devia ser a seiva. Estranheza tinha entrado em tudo que crescia, então. Mesmo assim não foi ninguém da família de Nahum quem fez a próxima descoberta. A familiaridade os havia tornado insensíveis, e o que eles não podiam ver foi vislumbrado por um tímido vendedor de moinhos-de-vento vindo de Bolton que passou por ali uma noite ignorando as lendas do interior. O que ele contou em Arkham foi citado como um curto parágrafo no Gazette; e foi lá que todos os fazendeiros, incluindo Nahum, souberam do fato. A noite tinha sido escura e os lampiões da charrete fracos, mas ao redor da fazenda no vale que todos sabiam pela descrição ser o de Nahum, a escuridão havia sido menos intensa. Uma débil embora distinta luminosidade parecia inerente em toda a vegetação, grama, folhas e florescências indistintamente, enquanto a certo momento um pedaço destacado de fosforescência pareceu mover-se furtivamente no jardim próximo ao celeiro.

O gramado parecia até então intocado, e as vacas era livremente pastoreadas no lote próximo a casa, mas para o fim de maio o leite começou a ficar ruim. Então Nahum conduziu as vacas para as terras altas, após o que os problemas cessaram. Não muito depois disso a mudança na grama e na folhagem se tornou aparente aos olhos. Toda a verdura estava ficando cinza, e estava desenvolvendo uma qualidade altamente singular de fragilidade. Ammi era agora a única pessoa que ainda visitava o lugar, e suas visitas estavam se tornando mais e mais raras. Quando a escola fechou os Gardners foram virtualmente isolados do mundo e algumas vezes deixavam Ammi cumprir suas incumbências na cidade. Eles estavam fraquejando tanto física quando mentalmente, e ninguém se surpreendeu quando as notícias sobre a loucura da Sra. Gardner começaram a surgir.

Aconteceu em junho, aproximadamente no aniversário da queda do meteoro, e a pobre mulher gritava sobre coisas no ar que ela não conseguia descrever. Em seus delírios não havia um único nome específico, mas apenas verbos e pronomes. Coisas se moviam e mudavam e esvoaçavam, e os ouvidos zuniam devido a impulsos os quais não eram sons completos. Alguma coisa fora tirado dela – ela estava sendo drenada de algo – alguma coisa que não deveria existir estava se alimentando dela – alguém precisava mantê-lo longe – nada jamais ficava parado à noite – as paredes e janelas mudavam de lugar. Nahum não a enviou ao asilo do distrito, mas a deixou perambular pela casa enquanto fosse inofensiva para si mesma e para os outros. Mesmo quando a expressão dela mudou ele não fez nada. Mas quando os garotos ficaram com medo dela, e Thaddeus quase desmaiou por causa da maneira com que ela o encarava, Nahum decidiu mantê-la trancada no ático. Em julho era havia parado de falar e rastejava de quatro, e antes do fim do mês Nahum adquiriu a louca noção de que ela era levemente luminosa no escuro, assim como ele claramente via agora que era o caso com a vegetação próxima.

Foi um pouco antes disso que os cavalos fugiram em pânico. Alguma coisa os agitara durante a noite, e seus relinchos e chutes em suas baias haviam sido terríveis. Não parecia haver virtualmente nada a fazer para acalmá-los, e quando Nahum abriu a porta do estábulo eles todos dispararam para fora como cervos da floresta assustados. Levou uma semana para rastrear todos os quatro, e quando encontrados se mostraram completamente inúteis e incontroláveis. Algo havia se rompido em seus cérebros, e cada um teve de ser sacrificado para seu próprio bem. Nahum emprestou um cavalo de Ammi para sua fenação, mas descobriu que ele não se aproximaria do estábulo. Ele se retraiu, empacou, relinchou e afinal ele não pode fazer nada além de conduzi-lo ao jardim enquanto os homens usavam a própria força para levar a pesada carroça perto o suficiente da pilha de feno para serem recolhidos mais convenientemente. E enquanto tudo isso acontecia a vegetação estava se tornando cinza e quebradiça. Mesmo as flores cujas tonalidades haviam sido tão estranha estavam se acinzentando agora, e as frutas estavam crescendo cinzentas e acanhadas e sem gosto. As aster e solidagos floresceram cinza e distorcidas, e as rosas e zínias e malvas do jardim da frente eram coisas com aparência tão blasfema que o filho mais velho de Nahum, Zenas, as cortou. Os insetos estranhamente inchados morreram por volta desta época, mesmo as abelhas que haviam deixado suas colméias e levadas à floresta.

Em setembro toda a vegetação estava se desfazendo rapidamente em um pó acinzentado, e Nahum temia que as árvores morressem antes que o veneno estivesse fora do solo. Sua esposa agora tinha surtos de terríveis gritos, e ele e os meninos estavam em um constante estado de tensão nervosa. Eles agora evitam as pessoas, e quando a escola abriu os meninos não foram. Mas foi Ammi, em uma de suas raras visitas, quem primeiro se deu conta que a água do poço não estava mais boa. Ela tinha um gosto maligno que não era exatamente fétido nem exatamente salgado, e Ammi aconselhou o amigo a escavar outro poço em terreno mais alto para usar até quando o solo estivesse bom novamente. Nahum, contudo, ignorou o alerta, pois ele agora havia se tornado insensibilizado com relação a coisas estranhas e desagradáveis. Ele e os meninos continuaram a usar o suprimento contaminado, tomando dele tão apática e mecanicamente quanto comiam suas refeições deficientes e mal-cozidas e realizam suas tarefas diárias ingratas e monótonas através dos dias sem sentido. Havia algo de uma sólida resignação neles, como se eles tivessem entrado metade em outro mundo entre as linhas de guardas sem nome para uma sina familiar e certa.

Thaddeus ficou louco em setembro após uma visita ao poço. Ele fora com um balde e voltara de mãos vazias, gritando e sacudindo os braços, algumas vezes caindo em um estado de risadinhas vazias ou sussurros sobre “as cores movediças lá embaixo”. Dois em uma família era bastante ruim, mas Nahum foi bastante valente com relação a isso. Ele deixou o garoto vagar livremente por uma semana até ele começar a tropeçar e se machucar, e então ele o prendeu em um quarto no ático em frente ao quarto de sua mãe. A maneira que gritavam um com outro por detrás de suas portas trancadas era bastante terrível, especialmente para o pequeno Merwin, que imaginou que eles conversavam em alguma língua terrível que não era da terra. Merwin estava ficando aterrorizantemente imaginativo, e sua inquietude ficou pior após o isolamento de seu irmão o qual havia sido seu maior colega de brincadeiras.

Quase ao mesmo tempo começou a mortalidade entre os animais. As aves se tornaram acinzentadas e morreram rapidamente, a carne verificou-se seca e repugnante quando cortada. Os porcos cresceram excessivamente gordos, então repentinamente começaram a passar por mudanças revoltantes que ninguém podia explicar. A carne era obviamente inútil, e Nahum estava no fim de seu juízo. Nenhum veterinário rural se aproximaria de sua propriedade, e o veterinário da cidade vindo de Arkham estava abertamente desconcertado. Os suínos começaram a ficar cinzentos e frágeis e partir em pedaços antes de morrerem, e seus olhos e focinhos desenvolveram alterações singulares. Era bastante inexplicável, pois eles nunca haviam sido alimentados com a vegetação contaminada. Então alguma coisa atingiu as vacas. Certas áreas ou algumas vezes o corpo todo ficavam estranhamente ressecadas ou comprimidas e colapsos atrozes ou desintegrações eram comuns. Nos últimos estágios – e morte sempre era o resultado – ocorria um acinzentamento e uma fragilidade como a que atingira os porcos. Não podia haver a questão do veneno, pois todos os casos ocorreram em um estábulo fechado e imperturbado. Mordida nenhuma de coisas furtivas poderiam ter trazido o vírus, pois qual besta viva da terra poderia passar por obstáculos sólidos? Deve ser apenas uma doença natural – mesmo assim qual doença poderia desencadear tais resultados estava além do palpite de qualquer um. Quando a colheita chegou não havia nenhum animal sobrevivente na propriedade, pois os animais e aves haviam morrido e os cães fugiram. Estes cães, três em número, sumiram todos numa noite e nunca mais foram vistos novamente. Os cinco gatos partiram algum tempo antes, mas seus sumiços mal foram notados uma vez que agora não pareciam existir ratos, e apenas a Sra. Gardner havia feito dos graciosos felinos animais de estimação.

No décimo-nono dia de outubro Nahum cambaleou casa de Ammi adentro com notícias hediondas. A morte veio ao pobre Thaddeus em seu quarto no ático, e viera de uma forma a qual não poderia ser descrita. Nahum cavou uma sepultura no terreno cercado da família atrás da fazenda, e colocou nela o que encontrara. Não poderia ter sido nada de fora, pois a pequena janela bloqueada e a porta trancada estavam intactas; mas aconteceu como no estábulo. Ammi e sua esposa consolaram o arrasado homem o melhor que puderam, mas estremeceram ao fazê-lo. Absoluto terror parecia pairar ao redor dos Gardners e de tudo que eles tocavam, e a mera presença de um deles na casa era um sopro de regiões inominadas e inomináveis. Ammi acompanhou Nahum até em casa com grande relutância, e fez o que pode para acalmar o soluçar histérico do pequeno Merwin. Zenas não necessitava de consolo. Ultimamente ele começou a não fazer nada além de olhar fixamente para o nada e obedecer ao que seu pai lhe dizia; e Ammi achou que sua sorte era bastante compassiva. De vez em quando os gritos de Merwin eram respondidos debilmente do ático, e em resposta a um olhar inquisidor Nahum disse que sua esposa estava ficando bastante fraca. Quando a noite se aproximou, Ammi deu um jeito de ir embora; pois nem mesmo amizade poderia fazê-lo permanecer naquele ponto quando o débil brilho da vegetação começasse e as árvores podiam ou não ter se movido sem vento. Ammi era realmente afortunado por não ser mais imaginativo. Mesmo como as coisas estavam, sua mente desatinou apenas ligeiramente; se ele fosse capaz de conectar e refletir sobre todos os portentos ao redor dele ele inevitavelmente teria se tornando um maníaco completo. No crepúsculo ele se apressou para casa, com os gritos da louca mulher e da criança nervosa ecoando horrivelmente em seus ouvidos.

Três dias depois Nahum irrompeu na cozinha de Ammi no início da manhã, e na ausência de seu anfitrião gaguejou novamente uma história desesperada, enquanto a Sra. Pierce ouvia em terror estático. Fora o pequeno Merwin desta vez. Ele se fora. Ele saíra tarde da noite com uma lanterna e balde para pegar água, e nunca retornou. Ele estava perdendo o controle há dias, e mal-e-mal sabia o que estava fazendo. Gritava de medo por tudo. Houve então um frenético grito agudo vindo do jardim, mas antes que o pai pudesse chegar à porta o menino se fora. Não havia nenhuma luminosidade da lanterna que ele havia levado, e da própria criança nenhum traço. Àquele momento Nahum pensou que a lanterna e balde tinham se ido também; mas quando amanheceu, e o homem arrastava-se de volta de sua busca de noite inteira nas florestas e campos, ele encontrou algumas coisas bem curiosas perto do poço. Lá havia uma massa de ferro amassada e aparentemente um tanto derretida a qual certamente fora a lanterna; enquanto que uma alça dobrada e aros retorcidos de ferro ao lado dela, ambos meio fundidos, pareciam indicar os remanescentes do balde. Aquilo era tudo. Nahum era incapaz de dar uma sugestão, Sra. Pierce estava pálida, e Ammi, quando voltou para casa e ouviu a história, não conseguia dar nenhuma opinião. Merwin se fora, e não ajudaria em nada contar as pessoas ao redor, que agora evitavam os Gardners. De nada adiantava, também, em avisar o povo da cidade em Arkham que riam de tudo. Thad se fora e agora Merwin se fora. Alguma coisa estava crescendo e crescendo e esperando para ser vista e ouvida. Nahum se iria logo, e ele queria que Ammi cuidasse de sua esposa e de Zenas se eles sobrevivessem mais que ele. Deve ser tudo um julgamento de algum tipo; embora ele não pudesse imaginar por que, uma vez que ele sempre caminhara honradamente nas sendas do Senhor até onde sabia.

Por mais de duas semanas Ammi não soube nada de Nahum; e então, preocupado com o que podia ter acontecido, ele superou seus medos e fez uma visita à propriedade de Gardner. Não havia fumaça saindo da grande chaminé, e por um momento o visitante estava esperando o pior. O aspecto da fazenda inteira era chocante – grama e folhas murchas e acinzentadas no chão, trepadeiras caindo sobre escombros quebradiços de paredes e gabletes arcaicos, e grandes árvores nuas esticando as garras para o cinzento céu de novembro como uma malevolência estudada a qual Ammi nada podia além de sentir que provinha de alguma mudança sutil na inclinação dos galhos. Mas Nahum estava vivo, apesar de tudo. Ele estava fraco, e deitado em um sofá na cozinha de teto baixo, mas perfeitamente consciente e capaz de dar ordens simples a Zenas. A sala estava mortalmente fria; e como Ammi tremia visivelmente, o anfitrião gritou rispidamente a Zenas por mais madeira. Madeira, de fato, era dolorosamente necessária; uma vez que o cavernosa lareira estava apagada e vazia, com uma nuvem de fuligem agitando-se no vento gelado que vinha pela chaminé. Logo Nahum peguntou a ele se a madeira extra o fizera um pouco mais confortável, e então Ammi entendeu o que acontecera. A corda mais rígida havia se rompido finalmente, e a desafortunada mente do fazendeiro estava protegida contra mais tristezas.

Perguntando com bastante tato, Ammi não pode conseguir nenhuma informação clara sobre o ausente Zenas. “No poço – ele vive no poço –“ era tudo que o anuviado pai dizia. Então passou pela mente do visitante a lembrança repentina da esposa louca, e ele mudou sua linha de questionamento. “Nabby? Porque, aqui está ela!” foi a resposta surpresa do pobre Nahum, e Ammi logo percebeu que teria que procurar por si mesmo. Deixando o inofensivo tagarela no sofá, ele pegou as chaves de seu prego ao lado da porta e subiu as escadas rangentes até o ático. Era bastante opressivo e nauseante lá em cima, e nenhum som poderia ser ouvido em qualquer direção. Das quatro portas à vista apenas uma estava trancada, e nela ele tentou várias chaves do anel que ele havia pegado. A terceira chave se provou a correta, e após alguma hesitação Ammi escancarou a baixa porta branca.

Estava muito escuro dentro, pois a janela era pequena e meio tampada com pedaços brutos de madeira; e Ammi não podia ver absolutamente nada no piso de tábuas largas. O fedor estava insuportável, e antes de seguir adiante ele teve que recuar para outro quarto e retornar com os pulmões cheios de ar respirável. Quando ele de fato entrou ele percebeu alguma coisa escura no canto, e ao vê-la mais claramente ele imediatamente gritou. Enquanto gritava ele achou que uma nuvem momentânea eclipsara a janela, e um segundo mais tarde ele se sentiu tocado de leve como se por alguma odiosa corrente de vapor. Estranhas cores dançaram ante seus olhos; e se o horror do momento não o tivesse paralisado ele teria pensado no glóbulo dentro do meteoro que o martelo do geólogo havia partido, e na mórbida vegetação que brotou na primavera. Como ele estava pensava apenas na blasfema monstruosidade que o confrontava, e que muito claramente partilhara o destino inominável do jovem Thaddeus e dos animais. Mas a terrível coisa sobre o horror fora que ele muito lentamente e de forma perceptível se movera enquanto continuava a se desfazer.

Ammi não me forneceria mais detalhes desta cena, mas a forma no canto não reaparece em sua história como um objeto que se movia. Há coisas que não podem ser mencionadas, e o que é feito em um senso de humanidade é algumas vezes cruelmente julgado pela lei. Eu deduzi que nenhuma coisa que se movia foi deixada naquele quarto do ático, e que deixar lá qualquer coisa capaz de se mover teria sido um feito tão monstruoso que condenaria qualquer ser responsável ao tormento eterno. Ninguém exceto um fazendeiro estóico teria desmaiado ou ficado louco, mas Ammi andou conscientemente através daquele batente baixo e trancou o amaldiçoado segredo atrás dele. Havia Nahum com quem lidar agora; ele deveria ser alimentado e atendido, e removido para algum lugar onde pudesse ser cuidado.

Começando sua descida das escadas escuras. Ammi ouviu uma pancada abaixo dele. Ele mesmo pensou que um grito havia sido repentinamente suprimido, e recordou nervosamente do pegajoso vapor que havia se esfregado de leve nele naquele horrível quarto acima. Que presença seu grito e entrada havia alertado? Imobilizado por algum medo vago, ele ouviu sons ainda mais distantes vindos de baixo. Indubitavelmente havia uma espécie de arrastar pesado, e um absolutamente detestável doentio barulho como se fosse alguma diabólica e obscena espécie de sucção. Com um sentido associativo impelido a alturas febris, ele inexplicavelmente pensava no que havia visto escadaria acima. Bom Deus! Que sobrenatural mundo-onírico era este no qual ele havia sido atirado? Ele não ousava mover-se nem para frente nem para trás, mas permaneceu lá tremendo na curva negra da escadaria fechada. Cada detalhe ínfimo da cena queimava-se em seu cérebro. Os sons, a sensação de aterrorizante antecipação, a escuridão, a inclinação do degrau estreito – e piedoso Céu! – a leve mas inconfundível luminosidade de todo o madeiramento a vista; tanto em degraus, lados, forração de estuque exposta quanto nas vigas.

Então irrompeu um frenético relincho do cavalo de Ammi lá fora, seguindo imediatamente por uma algazarra que indicava uma fuga frenética. No momento seguinte cavalo e charrete haviam ido para além da audição, deixando o assustado homem nas escadas escuras a imaginar o que os havia feito disparar. Mas isto não fora tudo. Houvera outro som lá fora. Uma espécie de chapinhar líquido – água – deve ter sido o poço. Ele havia deixado Herói solto perto dele, e a roda da charrete deve ter raspado a borda e derrubado uma pedra. Mas ainda assim a pálida fosforescência brilhava naquele detestavelmente antigo madeiramento. Deus! quão velha a casa era! A maior parte dela construída antes de 1670, e o telhado gambrel não depois de 1730.

Um débil arranhar no chão escada abaixo agora soava distintamente, e a mão de Ammi apertou com força um bastão pesado que ele havia pegado no ático para algum propósito. Lentamente se encorajando, ele terminou sua descida e caminhou corajosamente em direção à cozinha. Mas ele não completou a caminhada, pois o que ele buscava não estava mais lá. Havia vindo encontrá-lo, e ainda estava vivo de uma certa forma. Se havia rastejado ou se havia sido arrastado por forças externas Ammi não podia dizer; mas a morte havia estado naquilo. Tudo havia acontecido na última meia hora, mas colapso, acinzentamento e desintegração já estavam bastante avançados. Havia uma terrível fragilidade, e fragmentos secos estavam de desprendendo. Ammi não podia tocá-lo, mas olhou horrorizado para a paródia distorcida do que havia sido uma face. “O que foi isso, Nahum – o que foi isso?” ele murmurou, e os lábios partidos e protusos mal foram capazes de crepitar uma resposta final.

“Nada… nada… a cor… ela queima… fria e molhada, mas queima… ela vivia no poço… eu vi ela… um tipo de fumaça… bem do tipo das flores da primavera passada… o poço brilhava de noite… Thad e Merwin e Zenas… tudo vivo… chupando a vida de tudo… naquela pedra… deve tê vindo naquela pedra venenou o lugar todo… num sei o que ela quer… a coisa redonda que homens da universidade cavocaram da pedra… eles quebraram ela… era da mesma cor… bem igual, como as flores e plantas… deve ter tido mais delas… sementes… sementes… elas cresceram… eu a primeira vez esta semana… deve ter ficado forte com o Zenas… ele era um menino grande, chei’de vida… ela pega sua cabeça e’tão pega você… te queima… no poço d´água… você tava certo sobre aquilo… água má… Zenas nunca voltou do poço… não pode se afastar… te puxa… ce sabe o que ta vindo mas num ‘dianta… eu vi ela mais de vez desde que Zenas foi pego… onde tá Nabby, Ammi?… minha cabeça não tá boa… num sei quanto tempo faz que eu dei comida pra ela… vai pegar ela se se a gente não cuidar… só uma cor… o rosto dele ta pegando aquela cor algumas vezes mais pra de noite… ela queima e chupa… ela veio dum lugar onde as coisas não são como aqui… um daqueles professores disse isso… ele tava certo… cuidado, Ammi, ela vai faze mais alguma coisa… chupa a vida…”


Mas isso foi tudo. Aquilo que falou não podia falar mais porque tinha colapsado completamente. Ammi colocou uma toalha de mesa de xadrez vermelho sobre o que restou e saiu pela porta dos fundos para os campos. Ele escalou o declive para o pasto de dez acres e cambaleou para casa através da estrada norte e da floresta. Ele não podia passar pelo poço do qual seus cavalos haviam fugido. Ele o havia olhado através da janela e visto que não havia nenhuma pedra faltando na borda. Então a oscilante charrete não havia deslocado nada afinal – o chapinhar havia sido alguma outra coisa – alguma coisa que foi para dentro do poço após ter terminando com o pobre Nahum.

Quando Ammi chegou em sua casa os cavalos e charrete haviam chegado antes dele e causado ataques de ansiedade em sua esposa. Tranquilizando-a sem explicações, ele partiu imediatamente para Arkham e notificou as autoridades que a família Gardner não existia mais. Ele não deu nenhum detalhe, mas meramente contou das mortes de Nahum e Nabby, sendo a morte de Thaddeus já sabida, e mencionou que a causa parecia ser o mesmo estranho padecimento que havia matado os animais. Ele também afirmou que Merwin e Zenas haviam desaparecidos. Houve um considerável questionamento na estação policial, e no fim Ammi foi obrigado a levar três policiais até a fazenda Gardner, junto com o médico legista, o examinador médico e o veterinário que havia tratado os animais doentes. Ele foi muito contra vontade, pois a tarde estava avançando e ele temia o cair da noite sobre aquele lugar amaldiçoado, mas havia algum conforto em ter tantas pessoas com ele.

Os seis homens seguiram em um carroça-democrata, seguindo a charrete de Ammi, e chegaram na empestada casa da fazenda por volta das quatro horas. Mesmo acostumado como eram os policiais a experiências macabras, nenhum deles permaneceu impávido pelo que foi encontrado no ático e sob a toalha de mesa de xadrez vermelho no piso abaixo. O aspecto geral da fazenda com sua desolação cinza era terrível o suficiente, mas aqueles dois objetos se desfazendo estavam além de quaisquer limites. Ninguém podia olhar para eles, e mesmo o examinador médico admitiu que havia muito pouco a examinar. Amostras poderiam ser examinadas, é claro, assim ele se apressou em obtê-las – e eis que um resultado bastante intrigante ocorreu no laboratório da universidade para onde as duas ampolas de pó foram afinal levadas. Sob o espectroscópio ambas as amostras forneceram um espectro desconhecido, no qual muitos das desconcertantes faixas eram precisamente iguais àquelas que o estranho meteoro tinha revelado no ano anterior. A capacidade de emitir este espectro desapareceu em um mês, após o que o pó consistia principalmente de fosfatos alcalinos e carbonatos.

Ammi não teria contado aos homens sobre o poço se tivesse imaginado que eles teriam intenção de fazer algo naquela hora e naquele momento. Estava se aproximando do pôr-do-sol, e ele estava ansioso para estar longe. Mas ele não pode evitar olhar nervosamente de relance a borda de pedras do grande sarilho e quando um policial questionou-o ele admitiu que Nahum temia tanto alguma coisa lá embaixo que sequer cogitara procurar nele por Merwin e Zenas. Após isso nada além esvaziar e explorar o poço imediatamente seria suficiente, assim Ami teve que aguardar tremendo enquanto balde após balde de água fétida era erguido e esvaziado no solo que estava ficando encharcado. Os homens fungaram em desgosto ao fluído, e para o final do trabalho taparam os narizes devido à fetidez que estavam revelando. Não foi um trabalho tão longo quanto temiam que seria, uma vez que a água estava fenomenalmente baixa. Não há necessidade de falar muito exatamente sobre o que eles encontraram. Merwin e Zenas estavam ambos lá, em parte, embora os vestígios fossem principalmente esqueléticos. Lá também estava um pequeno veado e um grande cachorro mais ou menos no mesmo estado, e uma quantidade de ossos de pequenos animais. O lodo e a gosma no fundo pareciam inexplicavelmente porosos e efervescentes, e um homem que desceu utilizando os apoios de mão com uma longa vara descobriu que ele podia enfiar o pedaço de madeira a qualquer profundidade no barro do fundo sem encontrar qualquer obstrução sólida.

Crepúsculo havia então caído, e lampiões foram trazidas da casa. Então, quando se verificou que nada mais seria obtido do poço, todos entraram e conferenciaram na antiga sala de estar enquanto que a luz intermitente de uma meia-lua espectral brincava languidamente na desolação cinza do lado de fora. Os homens estavam francamente perplexos em relação à totalidade do caso, e não conseguiram encontrar um elemento comum convincente para conectar as estranhas condições vegetais, a doença desconhecida de animais e humanos e as inexplicáveis mortes de Merwin e Zenas no poço contaminado. Eles haviam ouvido os boatos do interior, é verdade; mas não conseguiam acreditar que nada contrário à lei natural houvesse ocorrido. Sem dúvida o meteoro havia envenenado o solo, mas a doenças das pessoas e animais que não haviam comido nada crescido naquele solo era outro assunto. Seria a água do poço? Muito possivelmente. Pode ser uma boa idéia analisá-la. Mas que loucura peculiar havia feito ambos os meninos pularem no poço? Seus feitos eram tão similares – e os fragmentos mostraram que ambos sofreram da morte cinza quebradiça. Porque tudo estava tão cinza e quebradiço?

Foi o legista, sentado perto de uma janela que dava para o jardim, quem primeiro notou o brilho ao redor do poço. A noite havia chegado completamente, e todos os repulsivos terrenos pareciam levemente luminosos com mais do que os intermitentes raios de luar; mas este novo brilho era algo definido e distinto, e parecia disparar para cima a partir do buraco negro como um raio amainado de um holofote, criando reflexos embotados nas pequenas poças do chão onde a água do poço havia sido esvaziada. Tinha uma cor bastante esquisita, e enquanto todos os homens se aglomeravam ao redor da janela Ammi teve um violento espasmo. Pois este estranho raio de aterrorizante miasma não tinha para ele um tom desconhecido. Ele havia visto aquela cor antes, e tinha medo de pensar o que isto significava. Ele a havia visto no desagradável glóbulo quebradiço naquele aerólito dois verões atrás, havia visto na enlouquecida vegetação da primavera, e acreditava tê-la visto por um momento naquela mesma manhã defronte a pequena janela bloqueada naquele terrível quarto do ático onde coisas inominadas aconteceram. Ela havia cintilado ali por um segundo, e uma corrente de vapor pegajosa e detestável havia passado resvalando nele – e então o pobre Nahum havia sido tomado por alguma coisa daquela cor. Ele o disse então finalmente – disse que aquilo era como o glóbulo e as plantas. Após aquilo tinha acontecido a correria no jardim e o chapinhar no poço – e agora aquele poço estava expelindo na noite um raio pálido e insidioso da mesma coloração demoníaca.

Deve-se dar crédito à vigilância da mente de Ammi que ele estivesse ponderando mesmo naquele momento tenso sobre um ponto que era essencialmente científico. Ele não podia deixar de se assombrar ao dar-se conta de que a mesma sensação foi causada por um vapor vislumbrado à luz do dia, contra uma janela aberta para o céu matutino e por uma exalação noturna vista como uma névoa fosforescente contra a paisagem negra e ressequida. Não estava certo – era contra a Natureza – ele pensou naquelas terríveis últimas palavras de seu amigo acometido, “ela veio dum lugar onde as coisas não são como aqui… um daqueles professores disse isso…”

Todos os três cavalos no lado de fora, amarrados a um par de jovens árvores engelhadas ao lado da estrada, estavam agora relinchando agudamente e batendo os cascos no chão freneticamente. O condutor da carroça começou a se dirigir à porta para fazer alguma coisa, mas Ammi colocou uma mão trêmula em seu ombro. “Não vá lá pra fora”, ele murmurou. “Tem mais coisa aqui do que sabemos. Nahum disse que alguma coisa que vivia no poço sugava sua vida. Ele disse que devia ser devia ser alguma coisa que cresceu de uma bola redonda como a que todos vimos na pedra meteoro que caiu um ano atrás em junho. Suga e queima, ele disse, e é só uma nuvem de cor como aquela luz lá fora agora, que você dificilmente consegue ver e não pode dizer o que é. Nahum achava que se alimentava de tudo vivo e ficava mais forte o tempo todo. Ele isse que tinha visto na semana passada. Deve ser alguma coisa de bem longe no céu como os homens da universidade ano passado disseram que a pedra meteoro era. A maneira como é feita e a maneira como funciona não é nada desse mundo de Deus. É alguma coisa vinda de outro mundo”.

Então os homem pararam indecisos enquanto a luz do poço ficava mais forte e os cavalos presos batiam com os cascos e relinchavam agudamente em um crescente frenesi. Foi verdadeiramente um momento horrível; com terror naquela na própria antiga e amaldiçoada casa, quatro monstruosos conjuntos de fragmentos – dois da casa e dois do poço – no galpão de madeira atrás, e aquele facho de iridiscência desconhecida e ímpia vindo das profundezas viscosas à frente. Ammi havia contido o condutor por impulso, esquecendo o quão incólume ele ficou após o resvalar pegajoso daquele vapor colorido no quarto do ático, mas talvez tenha sido bom ele ter agido da maneira que agiu. Ninguém jamais saberá o que estava vagando naquela noite; e embora a blasfêmia do outro mundo não tivesse até então machucado nenhum humano cuja mente não estivesse enfraquecida, não havia como dizer o que não poderia ter feito naquele último momento, e com sua aparentemente ampliada força e os sinais especiais de intenção que estava preste a mostrar sob o meio encoberto céu enluarado.

Imediatamente um dos detetives à janela soltou um arquejo curto e agudo. Os outros olharam para ele, e então rapidamente seguiram seu olhar fixo para cima até o ponto para o qual seu olhar distraído foi subitamente atraído. Não havia necessidade de palavras. O que havia sido contestado nos boatos do interior não era mais contestável, e isso devido à coisa que cada homem naquele grupo concordou aos sussurros mais tarde, que os dias estranhos nunca são comentados em Arkham. É premissa necessária que não havia vento naquela hora da noite. Um começou não muito mais tarde, mas naquele momento não havia nenhum. Mesmo as pontas secas do persistente rinchão, cinzas e ressequidas, e as franjas do teto da carroça-democrata parada estavam imperturbadas. E mesmo assim em meio aquela tensa calma ímpia os altos ramos nus de todas as árvores no jardim estavam se movendo. Eles estavam se contorcendo mórbida e espasmodicamente, estendendo suas garras em convulsiva e epilética loucura as nuvens enluaradas; arranhando impotentemente o ar nocivo como se puxadas por alguma linha de conexão associada e incorpórea com horrores subterrâneos se contorcendo e lutando abaixo das raízes negras.

Nenhum homem respirou por vários segundos. Então uma nuvem mais escura passou sobre a lua, e a silhueta dos galhos em forma de garra se agitando desapareceu momentaneamente. Neste momento houve um grito geral; abafado pelo assombro, mas rouco e quase idêntico em cada garganta. Pois o terror não havia esvaecido com a silhueta, e em um terrível instante de trevas mais escuras os observadores viram se movendo sinuosamente naquela altura do topo das árvores um milhar de pequenos pontos de débil e profana radiância, tocando cada ramo como o fogo-de-santelmo ou as chamas de desceram sobre a cabeça dos apóstolos no Pentecostes. Era uma monstruosa constelação de luz não-natural, como um um superabundante enxame de vagalumes necrófagos dançando sarabandas infernais sobre um pântano amaldiçoado, e sua cor era a mesma intrusão inominada a qual Ammi veio a reconhecer e temer. Enquanto tudo isso o facho de fosforescência que saía do poço estava ficando mais e mais brilhante, trazendo às mentes dos homens aglomerados uma sensação de ruína e anormalidade a qual de longe sobrepujou qualquer imagem que suas mentes conscientes pudessem formar. Não estava mais brilhando para fora; estava derramando para fora; e enquanto a disforme torrente de cor irreconhecível deixava o poço ela parecia flutuar diretamente para o céu.

O veterinário tremeu e caminhou até a porta da frente para baixar a pesada tranca extra através dela. Ammi não tremia menos, e teve que puxar e apontar por falta de voz controlável quando desejou chamar atenção para a crescente luminosidade das árvores. As batidas dos cascos e relinchar agudo se tornaram completamente aterrorizantes, mas nenhuma alma daquele grupo na velha casa teria se aventurado para fora por nenhuma recompensa terrena. Com o passar do tempo a luminosidade das árvores aumentava enquanto seus galhos inquietos pareciam se esticar mais e mais verticalmente. A madeira do sarilho estava brilhando agora; e então um policial silenciosamente apontou para alguns galpões de madeira e colméia de abelha perto ao muro de pedras no oeste. Eles estavam começando a brilhar, também, embora os veículos presos dos visitantes até então não pareciam afetados. Então houve uma comoção e cavalgar selvagens na estrada, e enquanto Ammi reduzia a luz da lâmpada para ver melhor eles perceberam que a parelha de cavalos cinzentos em frenesi haviam quebrado a pequena árvore onde foram amarrados e fugido com a carroça-democrata.

O choque serviu para soltar várias línguas, e murmúrios embaraçados foram trocados. “Se espalha em tudo orgânico que esteve ao redor daqui”, resmungou o examinador médico. Ninguém respondeu, mas o homem que havia estado no poço sugeriu que sua longa vara deve ter provocado alguma coisa intangível. “Foi horrível”, ele acrescentou. “Não havia nenhum fundo. Apenas lodo e bolhas e a sensação de alguma coisa espreitando lá embaixo”. O cavalo de Ammi continuava a bater com o casco no chão e berrar ensurdecedoramente na estrada lá fora, e quase encobriu os débeis sons trêmulos de seu dono enquanto este murmurava suas reflexões disformes. “Veio daquela pedra – cresceu lá embaixo – se alimentou deles, mente e corpo – Thad e Merwin, Zenas e Nabby – Nahum foi o último – todos eles tomaram a água – ficou forte neles – veio de outro mundo, onde as coisas não são como aqui – agora está indo pra casa – “.

Neste momento, quando a coluna de cor desconhecida aumentava de brilho repentinamente ficou mais forte e começou a se entrelaçar em fantásticas sugestões de formas as quais cada observador descreveu diferentemente, então veio do pobre e amarrado Herói um tal som como nenhum homem antes ou depois jamais ouviu de um cavalo. Cada pessoa naquela sala de estar de teto baixo colocou as mãos sobre as orelhas, e Ammi virou de costas para a janela em horror e náusea. Palavras não podiam descrever aquilo – quando Ammi olhou novamente a desafortunada besta jazia amontoada sobre o terreno enluarado entre os eixos arrebentados da charrete. Esta foi a última coisa que se soube de Herói até que eles o enterraram no dia seguinte. Mas o presente não era o momento para lamentações, pois quase a este instante um detetive silenciosamente chamou atenção para algo horrível naquela mesma sala com eles. Na ausência da luz da lanterna ficou claro que uma débil fosforescência havia começado a se infiltrar por todo o cômodo. Brilhava no chão de tábuas largas e no fragmento de tapete de trapos, e tremeluzia sobre os caixilhos das janelas de vidros pequenos. Ela percorreu de cima a baixo as colunas expostas nos cantos, coruscou entre a prateleira e a cornija, e infectou as próprias portas e mobília. Cada minuto a via se reforçando, e finalmente tornou-se bastante claro que todas as coisas vivas saudáveis deveria deixar aquela casa.

Ammi mostrou a eles a porta dos fundos e o caminho através dos campos subindo até o pasto de dez acres. Eles andaram e tropeçaram como em um sonho, e não ousaram olhar para trás até estarem bem longe no terreno mais alto. Eles estavam satisfeitos com o caminho, pois eles não poderiam ter ido pela via da frente. Já havia sido ruim o suficiente passar pelos galpões e estábulo brilhantes e aquelas reluzentes árvores do pomar com seus contornos deformados e demoníacos; mas graças ao Céu os galhos fizeram seu pior se contorcendo para cima. A lua se escondera atrás de algumas nuvens muito negras quando eles atravessaram a ponte rústica sobre o Riacho Chapman, e foi uma cega e hesitante caminhada dali até os prados abertos.

Quando eles olharam para trás em direção ao vale e à distante propriedade Gardner no fundo eles tiveram uma terrível visão. A fazenda estava brilhando com a horrível e desconhecida combinação de cor; árvores, construções e mesmo coisas como grama e a relva que não haviam ainda transmudado completamente para a letal e cinzenta fragilidade. Os galhos todos estavam esticando em direção ao céu, encabeçados com línguas de uma chama impura, e radiantes filamentos do mesmo fogo monstruoso. Estavam rastejando pelas cumeeiras da casa, estábulo e barracões. Era uma cena de uma visão de Fuseli, e sobre todo o resto reinava aquela desordem de luminosa amorfidade, aquele arco-íris alienígena e adimensional de crípticos venenos vindos do poço – fervilhando, sentindo, envolvendo, estendendo, cintilando, esticando e malignamente borbulhando em seu cósmico e irreconhecível cromaticismo.

Então sem aviso a horrível coisa arremessou-se verticalmente para cima em direção ao céu como um foguete ou meteoro, deixando para trás nenhum traço e desaparecendo através de um buraco curiosamente regular nas nuvens antes que qualquer homem pudesse se assustar ou gritar. Nenhum observador jamais poderia esquecer aquela visão, e Ammi fitou sem expressão as estrelas de Cygnus, com Deneb reluzindo mais do que as demais, onde a desconhecida cor se mesclou à Via Láctea. Mas seu olhar foi no próximo momento rapidamente chamado à terra pelo crepitar no vale. Foi apenas isso. Apenas um crepitar e rasgar de madeira, e não uma explosão, como muitos outros do grupo juraram. Mesmo assim o resultado foi o mesmo, pois em um febrilmente calidoscópio instante irrompeu daquela fazenda condenada e amaldiçoada fazenda um brilhantemente cataclismo eruptivo de fagulhas e substância não-naturais.; borrando a visão dos poucos que o viram, e enviando acima para o zênite um bombardeante aguaceiro de tais coloridos e fantásticos fragmentos que nosso universo teve necessidade de renegar. Através de vapores que estavam novamente se fechando rapidamente eles seguiram a grande morbidade que havia sumido, e no momento seguida os vapores sumiram também. Atrás e abaixo existia apenas uma escuridão para a qual os homens não ousavam retornar, e ao redor de tudo havia um vento ascendente que parecia se estender em rajadas negras e gélidas rajadas vindas do espaço interestelar. Ele guinchava e uivava, e chicoteava os campos e as árvores distorcidas em um frenesi cósmico enlouquecido, até que logo o trêmulo grupo percebeu que seria inútil aguardar pela lua para que mostrasse o que restara lá embaixo no Nahum.

Estupefatos demais mesmo para sugerir teorias, os sete homens trêmulos marcharam de volta em direção a Arkham pela estrada norte. Ammi estava pior que seus companheiros, e implorou a eles para deixá-lo dentro de sua própria cozinha, ao invés de continuar seguindo direto para a cidade. Ele não deseja cruzar sozinho as florestas ressequidas e açoitadas pelo vento até sua casa na estrada principal. Pois ele tinha tido um choque adicional do qual os outros foram poupados, e estava oprimido para sempre com um medo latente que ele não ousava sequer mencionar por muitos anos ainda. Enquanto o resto dos observadores naquela tempestuosa colina haviam apaticamente movidos seus rostos em direção à estrada, Ammi olhara para trás por um instante para o vale obscurecido pela desolação, tão recentemente abrigo de seu desafortunado amigo. E daquele ponto arrasado e distante ele viu alguma coisa débil se levantar, apenas para cair novamente sobre o local de onde o grande horror informe havia se atirado ao céu. Era apenas uma cor – mas não era nenhuma coisa de nossa terra ou céus. E porque Ammi reconheceu aquela cor, e sabia que aquele último débil resíduo deve continuar lá embaixo no poço, ele nunca foi totalmente são desde então.

Ammi nunca mais chegaria perto daquele lugar novamente. Faz quarenta e quatro anos desde que o horror aconteceu, mas ele nunca mais esteve lá, e ficaria satisfeito quando o novo reservatório o obliterasse. Eu ficarei satisfeito também, pois eu não gosto da maneira com o a luz do sol muda de cor ao redor da boca daquele poço abandonado pelo qual eu passei. Espero que a água seja sempre bem profunda – mas mesmo assim, eu nunca tomarei dela. Não acho que visitarei o interior de Arkham no futuro. Três dos homens que haviam estado com Ammi retornaram na manhã seguinte para ver as ruínas à luz do dia, mas lá não existia nenhuma ruína real. Apenas tijolos da chaminé, as pedras do porão, algum lixo mineral e metálico aqui e ali, e a borda do nefando poço. A não ser pelo cavalo morto de Ammi, o qual eles puxaram para longe e enterraram, e a charrete a qual logo retornaram a ele, tudo que tenha estado vivo na casa se fora. Cinco acres sobrenaturais de deserto de poeira cinza restaram, nem nada jamais cresceu lá desde então. Até este dia ele se espalha aberto sob o céu como um grande ponto corroído por ácido na florestas e campos, e os poucos que jamais ousaram vislumbrá-lo apesar das lendas rurais o nomearam “o ermo maldito”.

As lendas rurais são esquisitas. Elas poderiam ser ainda mais esquisitas se os homens da cidade e químicos da universidade estivessem interessados o suficiente a ponto de analisar a água daquele poço abandonado, ou a poeira cinza que nenhum vento parece dispersar. Botânicos, também, deveriam estudar a flora atrofiada nas fronteiras aquele ponto, pois ela poderia lançar luz sobre a noção interiorana de que a ressequidão está se disseminando – pouco a pouco, talvez uma polegada por ano. As pessoas dizem que a cor da relva não é totalmente correta na primavera, e que as coisas selvagens deixam marcas esquisitas na neve leve de inverno. A neve nunca parece tão pesada no ermo maldito quanto é em outros lugares. Cavalos – os poucos restantes nesta era do motor – se tornam assustadiços no vale silencioso; e caçadores não podem depender de seus cães muito próximo da nódoa de poeira cinzenta.

Dizem que as influências mentais são bem ruins, também; o grupo de pessoas ficou esquisito nos dias após o contágio de Nahum., e sempre lhes faltou a energia para ir embora. Então todas as pessoas mais resolutas deixaram a região, e apenas os estrangeiros tentaram viver nas antigas e desintegrantes herdades. Eles não conseguiam permanecer, contudo; e alguém às vezes se pergunta qual vislumbre além dos nossos suas histórias selvagens e estranhas de mágica sussurrada deu a eles. Seus sonhos à noite, suas queixas, são bastante horríveis naquele interior grotesco; e certamente uma sensação de estranheza naquelas ravinas profundas, e artistas estremecem enquanto pintam florestas fechadas cujo mistério é tanto do espírito quando dos olhos. Eu mesmo sou curioso com relação à sensação que obtive da minha única caminhada solitária antes que Ammi me contasse sua história. Quando o crepúsculo veio eu vagamente desejei que algumas nuvens se aglomerassem, pois uma estranha timidez sobre os profundos vazios espaciais acima havia invadido minha alma.

Não peçam minha opinião. Eu não sei – isto é tudo. Não há ninguém além de Ammi para questionar; pois as pessoas de Arkham não falarão sobre os dias estranho, e todos os três professores que viram o aerólito e o glóbulo colorido estão mortos. Existiam outros glóbulos – depende disso. Um deve ter se alimentado e escapou, e provavelmente existia outro que estava tarde demais. Sem dúvida continua lá embaixo no poço – eu sei que existe alguma coisa errada com a luz do sol que eu vi acima daquela borda miasmal. Os rústicos dizem que a ressequidão cresce uma polegada por ano, então talvez exista um tipo de crescimento e nutrição mesmo agora. Mas seja qual prole demoníaca esteja lá, deve estar confinado a algo ou se espalharia rapidamente. Teria se prendido às raízes daquelas árvores que rasgavam o ar com suas garras? Um dos atuais contos de Arkham é sobre gordos carvalhos que à noite brilham e se movem como não deveriam.

O que é, apenas Deus sabe. Em termos de matéria suponho que a coisa que Ammi descreveu seria chamada um gás, mas este gás obedecia a leis que não eram do nosso cosmos. Não era fruto de tais mundos e sóis tais como brilham nos telescópios e placas fotográficas de nossos observatórios. Não era sopro dos céus cujos movimentos e dimensões nossos astrônomos medem ou acreditam vasto demais para medir. Era apenas uma cor vinda do espaço – um assustador mensageiro de disformes reinos de infinito além de toda Natureza como a conhecemos; de reinos cuja mera existência atordoam o cérebro e nos paralisa com os golfos negros extracósmicos que lançam abertos antes nossos olhos delirantes.


Eu duvido muito que Ammi tenha conscientemente mentido para mim, e eu não acho que sua história fosse te todo uma excentricidade da loucura como o povo da cidade havia me alertado. Alguma coisa terrível veio às colinas e vales naquele meteoro, e alguma coisa terrível – embora eu não saiba em que proporção – ainda permanece. Eu ficarei feliz em ver a água vindo. Enquanto isso eu espero que nada aconteça com Ammi. Ele viu tanto da coisa – e sua influência era tão insidiosa. Por que ele nunca foi capaz de se mudar para longe? Quão claramente ele lembrava aquelas palavras moribundas de Nahum – “não pode se afastar – te puxa – ‘cê sabe o que ta vindo mas num ‘dianta. Ammi é um bom homem velho – quando a turma do reservatório começar a trabalhar escreverei ao engenheiro-chefe para manter uma vigilância atenta nele. Eu odiaria pensar nele como a monstruosidade cinza, retorcida e quebradiça que persiste mais e mais perturbando meu sono.

Ar frio - H.P Lovecraft


Você me pede para lhe explicar por que temo uma corrente de ar frio; Pergunta por que tenho mais calafrios que os outros ao entrar numa sala fria, e pareço nauseado e repelido quando a frieza do anoitecer rasteja através do calor de um dia ameno de outono. Há quem diga que eu reajo ao frio como outros reagem a um mau cheiro, e eu sou o último a negar essa impressão. O que eu farei será um relato da mais horrível circunstância em que jamais me encontrei, e deixarei ao seu julgamento decidir se isso forma ou não uma explicação razoável para a minha peculiaridade.

É um erro imaginar que o horror está inextricavelmente associado com a escuridão, o silêncio, e a solidão. Eu o encontrei no brilho de um meio de tarde, no clangor de uma metrópole, e no meio de uma comum e maltrapilha pensão com uma prosaica senhoria e dois homens robustos ao meu lado. Na primavera de 1923 eu havia garantido um triste e inútil emprego na redação de uma revista na cidade de Nova Iorque; e sendo incapaz de pagar qualquer aluguel substancial, comecei a me arrastar de um estabelecimento habitacional para o outro numa busca por um quarto que pudesse combinar as qualidades de limpeza decente, mobília suportável, e preços muito razoáveis. Isso logo me mostrou que eu só tinha uma escolha entre maus diferentes, mas depois de um tempo eu acabei com uma casa na West Fourteenth Street que me enojou bem menos do que as outras que experimentei.

O lugar era um casarão com quatro andares de arenito marrom, aparentemente datando do final dos anos quarenta, e equipado com madeira e mármore cujo manchado e maculado explendor exibia uma queda dos altos níveis do bom gosto. Nos quartos, grandes e espaçosos, e decorados com papel de parede impossível e ridículamente ornamentadas cornijas de gesso, habitava uma deprimente mofidão e pitadas de culinária obscura; mas os pisos eram limpos, os lençóis toleravelmente normais, e a água quente infrequentemente estava fria ou desligada, então eu cheguei a considerar que aquele era um lugar ao menos suportável para se hibernar até ser possível realmente viver de novo. A senhoria, uma desleixada, quase barbada mulher espanhola chamada Herrero, não me incomodava com fofocas ou com críticas sobre a luz queimada no corredor da frente do terceiro andar; e meus coabitantes tão quietos e taciturnos quanto possível, sendo em sua maioria espanhóis um pouco acima da mais grosseira e bruta categoria. Apenas o ruído dos carros na via pública lá embaixo chegava a ser um incômodo considerável.

Eu já estava lá a cerca de três semanas quando o primeiro incidente aconteceu. Num começo de noite por volta das oito horas eu ouvi um salpicar no chão e me tornei subitamente consciente de que estava sentindo o pungente odor de amônia por algum tempo. Olhando ao meu redor, eu vi que o teto estava molhando e pingando; o ensopamento aparentemente procedendo de um canto do lado vindo da rua. Ansioso para cortar o problema pela raiz, apressei-me ao porão para informar a senhoria; e fui assegurado por ela de que o problema seria rapidamente resolvido.

“Doctor Muñoz,” ela exclamou enquanto me ultrapassava às pressas para o andar de cima, “ele derramó sus químicas. Ele esta muy doente para medicar a si miesmo—mas y mas doente todo tiempo—pero ele no tem ninguém mais para arrudar. Ele es muy maricón con sua doenza—todo o dia ele toma banhos com odor estranho, e ele no puede ficar exaltado ou quente.

Todas las tarefas de cassa ele fass—lo quartito dele és lleno de garafas y máquinas, e ele no trabarra como doctor. Pero ele rá foi muy gran—mi padre en Barcelona tinha ovido dele—y logo ahora ele arrumó o braço do encanador que se machucó de repiente. Ele nunca vai a fora, só en lo tieto, e mi irro Esteban lo traz su comida e ropa lavada y medicamientos e químicas. Dios mio, o sal amoníaco qui este hombre usa para se mantier fresco!”

A Sra. Herrero desapareceu na escadaria para o quarto andar, e eu retornei ao meu quarto. A amônia havia parado de pingar, e enquanto eu limpava o que havia sido respingado e abria a janela para refrescar o ar, eu ouvia o pesado andar da senhoria sobre mim. O Dr. Muñoz eu nunca havia escutado, salvo certos sons como os de algum mecanismo movido a gasolina; já que seus passos eram suaves e gentis. Eu me perguntei por um momento qual poderia ser a estranha doença daquele homem, e se sua obstinada rejeição de ajuda exterior poderia ser o resultado de uma excêntricidade sem sentido. Existe, eu refleti banalmente, uma infinidade de patologias que poderiam afetar uma pessoa que desistiu do mundo.

Eu poderia nunca ter conhecido o Dr. Muñoz se não fosse pelo ataque cardíaco que súbitamente tomou conta de mim numa manhã enquanto eu escrevia sentado em meu quarto. Os médicos me disseram sobre os perigos dessas coisas, e eu sabia que não havia tempo a ser perdido; então lembrando-me do que a senhoria havia me dito sobre a ajuda do enfermo dada ao trabalhador ferido, eu me arrastei ao andar de cima e bati debilmente na porta acima da minha. Meu bater foi respondido com um bom inglês por uma voz curiosa um pouco além para a direita, perguntando meu nome e objetivo; e seguindo a resposta dessas perguntas, veio a abertura da porta ao lado da que eu esperava ver abrindo.

Uma corrente de ar frio me recebeu; e apesar daquele ter sido um dos mais quentes dias de Junho, tremi enquanto atravessei o limiar para dentro do grande apartamento cuja rica e fina decoração me surpreendia dentre aquele ninho de miséria e decadência. Um sofá-cama agora servia seu papel diurno de sofá, e a mobília de mogno, cortinas suntuosas, pinturas antigas, e estantes delicadas todas contavam a história do escritório de um cavalheiro, não de um quarto de pensão. Só então entendi que o pequeno quarto acima do meu—o “quartito” de garrafas e máquinas mencionado pela Sra. Herrero—era meramente o laboratório do doutor; e que os aposentos principais dele ficavam no espaçoso quarto adjacente cujas convenientes alcovas e cujo grande banheiro interligado permitiam-lhe esconder todas as suas cômodas e outros utensílios domésticos obstrusivos. Dr. Muñoz, certamente, era um homem de classe, cultivo, e discrição.

A figura diante de mim era curta mas unicamente proporcional, e estava vestida com roupas formais de perfeito tamanho e corte. Um bem formado rosto com uma expressão superior porém nada arrogante era adornado por uma curta barba cinzenta, e um pincenê antiquado cobria cheios e escuros olhos e sobrepunha um nariz anquilino que dava um toque mouro a uma fisiologia quase toda celtibérica. O cabelo grosso, bem cortado que sugeria visitas pontuais de um barbeiro estava partido com graça no topo de uma testa alta; o conjunto completo era um de inteligência atordoante e sangue superior.

Não obstante, enquanto eu via Dr. Muñoz em uma rajada de ar frio, eu sentia uma repugnância que nada em sua aparência poderia justificar. Apenas sua complexão vividamente inclinada e a frieza do seu toque poderia fornecer um embasamento físico para aquele sentimento, e mesmo essas coisas poderiam ser perdoadas considerando a conhecida invalidez do homem. Pode, também, ter sido o frio singular que me alienara; pois tal gelidez era anormal num dia tão quente, e o anormal sempre causa aversão, desconfiança, e medo.

Mas minha repugnância foi logo esquecida para dar lugar a admiração, pois a habilidade extrema do estranho médico finalmente se manifestou apesar de sua frieza congelante e da tremedeira de suas mãos que pareciam não ter sangue. Ele claramente entendeu minha necessidade com um só vislumbre, e tratou delas com a destreza de um mestre; enquanto me assegurava com uma finamente modulada porém estranhamente vazia e destimbrada voz de que ele era o mais amargo dos jurados inimigos da morte, e de que havia afundado toda a sua fortuna e perdido todos os seus amigos em uma vida de experimentos bizarros devotados a sua complexidade e extirpação. Algo de fanaticamente benevolente parecia residir nele, e ele divagava quase tagarelando enquanto auscultava meu peito e misturava uma adequada confecção de remédios buscados do pequeno quarto-laboratório. Evidentemente a companhia de um homem de boa família era rara novidade para ele naquele sujo ambiente, e isso o moveu a uma linguagem mais descontraída enquanto memórias de dias melhores emergiam em sua mente.

A voz dele, um tanto fresca, era ao menos tranquilizante; e eu mal podia perceber que ele respirava enquanto as fluentes frases rolavam por sua língua. Ele buscava distrair minha mente de minha própria apreensão contando-me de suas teorias e seus experimentos; e eu me lembro de sua consolação delicada quanto ao meu coração fraco em que insistia sobre a vantagem da força de vontade e da consciência contra a própria vida orgânica, e que um corpo humano sendo apenas originalmente saudável e cuidadosamente preservado pode através de melhoramentos científicos reter uma forma de animação nervosa a despeito dos mais sérios danos, defeitos, ou até mesmo a ausência de uma série de orgãos específicos. Ele poderia, ele disse em meio gracejo, algum dia ensinar-me a viver—ou ao menos a possuir algum tipo de existência consciente—sem nenhum coração sequer! Por sua parte, ele sofria de uma complicação de padecimentos que requeriam um regime muito restrito de frio constante. Qualquer aumento perceptível de temperatura poderia, se prolongado, afetá-lo fatalmente; e a frigidez de sua habitação—uns 55 ou 56 graus Fahrenheit—era mantida por um sistema de absorção de resfriamento por amônia, o motor a gasolina cujos bombeares eu frequentemente ouvia no meu próprio quarto abaixo.

Aliviado de minha aflição em um tempo maravilhosamente curto, eu deixei o gélido lugar como um discípulo e devoto do dotado recluso. Depois disso eu o fiz frequentes e agasalhadas visitas; ouvindo enquanto ele me contava de pesquisas secretas e quase assombrantes resultados, e tremendo um pouco quando eu examinava os não convencionais e surpreendentemente antigos volumes em suas estantes. Eu estava eventualmente, eu devo adicionar, quase curado de vez da minha doença graças a suas habilidosas intervenções. Parecia que ele não desprezava os encantamentos dos medievalistas, já que ele acreditava que essas fórmulas crípticas contêm raros estímulos psicológicos que podem de maneira concebível apresentar efeitos únicos na substância de um sistema nervoso em que pulsações orgânicas já não fluem. Eu fui tocado por seus relatos do idoso Dr. Torres de Valencia, que havia dividido seus experimentos anteriores com ele durante a grande moléstia de dezoito anos atrás, de onde sua atual enfermidade derivava. Não antes do venerável profissional salvar seu colega foi que ele mesmo sucumbiu ao sinistro inimigo com quem ele lutava. Talvez a tensão tenha sido grande demais; pois Dr. Muñoz deixou claro—embora não em detalhes—que os métodos de cura haviam sido dos mais extraordinários, envolvendo cenas e processos nada bem vindos pelos idosos e pelos Galenos conservadores.

Com o passar das semanas, eu observei com arrependimento que meu novo amigo estava de fato perdendo lenta mas inegavelmente perdendo suas faculdades físicas, como a Sra. Herrero havia insinuado. Os aspectos lívidos de sua feição estavam intensificados, sua voz se tornara mais vazia e indistinta, sua coordenação motora estava menos do que perfeitamente coordenada, e sua mente e força de vontade mostravam menos resiliência e iniciativa. Dessa triste mudança ele não parecia de forma alguma ignorante, e de pouco em pouco sua expressão e sua fala me levaram a macabra ironia de ter em mim restorada a sutil repulsa que senti originalmente.

Ele desenvolveu estranhos caprichos, adquirindo um gosto por temperos exóticos e incenso egípcio até que seu quarto cheirasse como a abóbada de um faraó sepultado no Vale dos Reis. Ao mesmo tempo suas exigências por ar frio aumentaram, e com a minha ajuda ele amplificou o encanamento de amônia de seu quarto e modificou as bombas e alimentadores de sua máquina refrigeradora até que ele pudesse manter a temperatura tão baixa quanto 34º ou 40º e finalmente até 28º; o banheiro e o laboratório, é claro, sendo menos gelados, a fim de que a água não congelasse, e que os processos químicos não pudessem ser impedidos. O inquilino ao lado reclamou do ar congelante ao redor da porta, então eu o ajudei a instalar pesados isolamentos para prevenir o problema. Uma forma de horror crescente, do tipo mais mórbido e assustador, parecia ter o possuído. Ele falava de morte incessantemente, mas ria ocamente quando assuntos como enterros ou acertos funerários eram gentilmente sugeridos.

Em geral, ele se tornou uma desconsertante e até mesmo macabra companhia; ainda assim em minha gratidão por sua cura eu não pude abandoná-lo nas mãos dos estranhos ao seu redor, e tomava os cuidados de tirar o pó de seu quarto e atender às suas necessidades todos os dias, enterrado em um casaco comprido de inverno que eu comprara especialmente com esse propósito. Eu também fazia muitas de suas comprar, e engasgava de perplexidade com alguns dos compostos químicos que ele pedia de drogarias e casas de fornecimento de laboratório.

Uma crescente e inexplicada atmosfera de pânico parecia surgir ao redor de seu apartamento. Toda a casa, como eu havia dito, possuía um odor de mofo; mas o cheiro em seu quarto era pior—mesmo com os temperos e o incenso, e os pungentes compostos químicos dos agora incessantes banhos que ele insistia em tomar sem ajuda. Eu percebi que aquilo deveria estar ligado à sua doença, e tinha calafrios quando refletia comigo mesmo qual doença seria aquela. A Sra. Herrero benzia-se quando olhava para ele, e deixou todos os cuidados do homem incondicionalmente em minhas mãos; nem mesmo deixava seu filho Esteban continuar a fazer favores para ele. Quando eu sugeria outros médicos, o enfermo se enfurecia o tanto quanto ousava se permitir. Ele evidentemente temia o efeito físico de qualquer emoção forte, ainda assim a sua força motriz parecia mais afiada em vez de mais fraca, e ele se recusava e ficar confinado a sua cama. A estafa de seus antigos dias de doente dava lugar a um retorno de motivação ardente, tanto que ele parecia preste a atirar provocações contra o anjo da morte mesmo enquanto seu antigo inimigo o apreendia. A pretensão de comer, curiosamente sempre como uma formalidade para ele, ele virtualmente abandonara; e somente poder mental parecia protegê-lo de total colapso.

Ele adquirira o habito de escrever longos documentos de algum tipo, os quais ele cuidadosamente selava e preenchia com instruções para que eu transmitisse-os após a sua morte para certas pessoas que ele nomeara—na sua maior parte estudiosos do Leste Indiano, mas incluíndo um já celebrado médico francês agora considerado morto, e sobre o qual as mais inacreditáveis coisas foram sussurradas. Após as ocorrências do que relato, eu queimei todos aqueles papéis sem entregá-los ou abri-los. O aspecto e a voz dele se tornaram completamente assustadores, e sua presença quase insuportável. Em um dia de Setembro um vislumbre inesperado dele induziu um ataque epilético em um homem que havia vindo para arrumar sua lampada elétrica de mesa; um ataque que ele tratou efetivamente enquanto mantia-se bem fora de vista. Aquele homem, curiosamente, havia passado pelos terrores da Grande Guerra sem ter sentido medo algum.

Então, no meio de Outubro, o horror dos horrores veio com estupefaciente supresa. Em uma noite por volta das onze a bomba da máquina de refrigeração quebrou, sendo que dentro de três horas o processo de resfriamento por amônia se tornaria impossível. Dr. Muñoz me convocou com pesadas batidas no chão, e eu trabalhei desesperadamente tentando reparar o dano enquanto meu anfitrião xingava em um tom cuja falta de vida e vaziez ultrapassavam qualquer descrição. Meus esforços amadores, no entanto, provaram-se inúteis; e quando eu trouxe o mecânico da garagem 24 horas no fim da rua nós descobrimos que nada poderia ser feito até o amanhecer, quando um novo pistão poderia ser obtido. A fúria e o medo do hermitão moribundo, dilatando-se a grotescas proporções, parecia suscetível a estraçalhar o que sobrada de seu físico decadente; e uma vez um espasmo fez com que ele colocasse as mãos sobre os olhos e corresse para o banheiro. Ele tateou seu caminho para fora com o rosto coberto de apertados esparadrapos, e eu nunca vi seus olhos novamente.

A frigidez do apartamento estava agora sensivelmente diminuindo, e por volta das 5 da manhã o doutor se retirou para o banheiro, me dando a ordem de mantê-lo abastecido com todo o gelo que eu pudesse obter em drogaria e cafeterias 24 horas. Enquanto eu retornava de minhas por vezes desencorajadoras jornadas e depositava meus espólios diante da porta fechada do banheiro, eu podia ouvir um incessante mover de água vindo de dentro, e uma voz áspera coaxando ordens para que eu buscasse “Mais—mais!” Lentamente nasceu um dia quente, e as lojas foram abrindo uma a uma. Eu pedi a Esteban que ou me ajudasse com a busca por gelo enquanto eu obtinha o pistão da bomba, ou que pedisse o pisão enquanto eu continuava com o gelo; mas como foi instruído por sua mãe, ele negou com firmeza.

Por fim acabei por contratar um vadio de aparência decadente que encontrei numa esquina da Oitava Avenida para que mantesse o paciente suprido com gelo de uma pequena loja que o apresentei, e me dediquei diligentemente à tarefa de encontrar um pistão de bomba e contratar trabalhadores competentes para intalá-lo. A tarefa parecia interminável, e eu me enfureci quase tão violentamente quando o hermitão quando eu vi as horas se esvaindo em círculo sem ar e sem refeições de telefonemas em vão, e uma busca febril de lugar em lugar, de ponto em ponto usando metrôs ou bondes. Por volta do meio dia eu encontrei uma casa de fornecimento adequada no centro da cidade, e foi aproximadamente as 1:30 da tarde que cheguei na pensão com a parafernália necessária e dois robustos e inteligentes mecânicos. Eu havia feito tudo que podia, e esperava ter chegado a tempo.

O mais obscuro dos terrores, no entanto, era o que me esperava. A casa estava um completo tumulto, e por cima da tagarelice das vozes aterrorizadas eu ouvi um homem rezar em basso profundo. Coisas demoníacas estavam no ar, diziam os pensionistas por sobre as contas de seus rosários enquanto sentiam o odor vindo debaixo da porta fechada do doutor. O vagabundo que eu contratara, aparentemente, fugiu gritanto e com a expressão enlouquecida não muito depois de sua segunda entrega de gelo; talvez como resultado de curiosidade excessiva. Ele não podia, é claro, ter trancado a porta atrás de si; ainda assim ela estava agora intrespassável, presumidamente trancada por dentro. Não havia som vindo de dentro salvo um certo tipo de gotejar grosso e lento.

Brevemente consultado a Sra. Herrero e os trabalhadores apesar de um medo que roía o fundo da minha alma, eu sugeri que a porta fosse derrubada; mas a senhoria encontrou uma maneira de virar a chave pelo lado de fora com o uso de uma bugiganga de arame. Antecipadamente abrimos as portas de todos os outros quartos daquele corredor, e escancaramos todas as janelas por completo. Agora, com narizes cobertos de lenços, nós trêmulamente invadimos o maldito quarto sul que reluziu com o sol quente do começo da tarde.

Um tipo de rastro escuro e gosmento levava da porta aberta do banheiro até a porta do corredor, e então até a mesa, onde uma terrível poça se acumulara. Algo estava lá rabiscado de lápis em uma quase incompreensível escrita cega num pedaço de papel horrívelmente manchado como se garras tivessem arranhado as ultimas palavras. O rastro então levava até o sofá e terminava indizivelmente.

O que estava, ou havia estado, no sofá eu não ouso descrever aqui. Mas era a mesma coisa que cobria o grudendo pedaço de papel antes de eu acender um fósforo e queimá-lo; e fiquei paralizado de terror no quarto enquanto a senhoria e os dois mecânicos corriam frenéticamente para fora daquele lugar infernal para tagarelar suas histórias incoerentes na delegacia mais próxima. As nauseantes palavras pareciam quase incríveis na luz amarelada do sol, com o clangor dos carros e dos caminhões ascendendo com clamor a populada Fourteenth Street, ainda assim eu confesso que então acreditei nelas. Se eu acredito nelas agora eu honestamente não sei. Existem coisas sobre as quais é melhor não especular, e tudo que eu posso dizer é que eu odeio o cheiro de amônia, e enfraqueço ao sentir o mais suave vento frio.

“O fim,” dizia o fétido garrancho, “está aqui. Sem mais gelo—o homem me viu e saiu correndo. Mais quente a cada minuto, e os lenços não vão durar. Eu imagino se você sabe—o que eu disse sobre a força de vontade e os nervos e o corpo sendo preservado após os orgãos pararem de funcionar. Era tudo ótimo na teoria, mas não podia ser mantido indefinidamente. Havia uma deteriorização que eu não havia previsto. Dr. Torres sabia, mas o choque o matou. Ele não pode aguentar o que ele devia fazer—ele tinha que me por em um estranho e escuro lugar onde ele lia minha carta e me trazia de volta. E os orgão nunca funcionariam novamente. Aquilo tinha de ser feito da minha maneira—preservação artificial—pois veja bem, eu morri daquela vez a dezoito anos atrás.”