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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

On A Hill - Sob a Colina - Parte 2

Creepysterror


John inicialmente não intencionava passar mais do que alguns dias na vila. Mesmo depois de ter viajado o dia inteiro de Londres, e a noite trazendo com ela as mordidas do inverno escocês, ele pretendia começar o mais rápido possível - quanto mais rápido terminasse, o mais rápido estaria em casa.

Trabalhando para uma grande empresa de aquisição de propriedades, era seu trabalho facilitar aos clientes ricos a busca de um terreno para construir. O indivíduo o qual ele representava estava especialmente interessado em comprar uma terra com bela vista para o campo, onde desejava construir uma enorme casa de campo para sua família. O local em questão tinha sido recentemente colocado à venda por um fazendeiro local que estava passando por maus bocados pela baixa da economia. Portanto, John foi contratado para avaliar a terra e negociar um bom preço, baseada nas recomendações feitas por um grupo de inspetores que tinham estado lá na semana anterior.

Após se instalar no O Lorde de Dungorth, ele dirigiu seu carro para a fazenda que se situava a apenas alguns quilômetros fora da vila. Toda a área consistia de vastos campos onde colheitas eram cultivadas e animais pastavam, alguns acres com florestas, e um rio ou riacho borbulhante ocasional. A negociação simplesmente fluiu, o fazendeiro - um homem idoso chamado Dale - estava precisando de capital o mais rápido possível para sustentar de pé o resto de suas fazendas, enquanto o cliente estava entusiasmando com o potencial da compra e desejava concluir o negócio rapidamente.

Independente disso, John era cuidadoso em finalizar um acordo antes dele mesmo dar uma olhada na propriedade. Durante os anos, ele desenvolveu uma reputação de oferecer exatamente o que o cliente queria, sem nenhuma surpresa desagradável após a compra, como afundamentos de terra ou quaisquer outras dificuldades de planejamento. Apesar dele não gostar muito do trabalho de avaliação de terrenos, ele era bem qualificado para detectar qualquer coisa que pudesse causar um problema futuro, mesmo levando um tempo considerável com isso, ele esperava voltar para a cidade o mais tardar no dia seguinte, se tudo corresse bem.

O fazendeiro, Sr. Dale, concordou gentilmente em levá-lo de trator em um breve passeio pelas terras, e não foi sem um leve sentimento de remorso que John ouviu o senhor contar a história da região, o apego dele e sua família a ao local e por isso era tão importante para ele manter o lugar funcionando. Mas negócios são negócios e o dinheiro que Dale conseguiria com as duas terras em questão o dariam uma benção incontestável - com sorte o suficiente para ajudá-lo a passar pela tempestade financeira.

A noite chegou rapidamente, e John ficou contente que a viagem desconfortável de trator não foi tão demorada. Pouco tempo depois Dale parou o veículo, apontando para dois campos ao lado que eram o que estavam à venda. Pela meia hora seguinte John pisoteou com suas botas por lama e gramados, tirando fotos do local onde seu cliente estava pensando em construir, enquanto lia atentamente os registros da equipe de inspetores, comparando-as com suas próprias anotações. Dale não queria acompanhá-lo nas pesquisas, então só ficou escorado em seu trator, observando tristemente.

Finalmente John tinha terminado, mas no mesmo instante seus olhos foram atraídos para uma colina a poucos quilômetros de distância, uma que dava vista para toda a área. Parecia estar inabitado, com alguns acres de floresta e gramado sendo suas únicas características distintivas. Apesar da distância, o morro parecia dominar o horizonte e, mesmo sem ter sido verbalizado, John sentia que este era especial ou único de algum modo. Ao voltar para o trator, ele apontou para lá, mas Dale parecia relutante sobre o assunto, respondendo gelidamente as perguntas ou apenas ficando em silêncio. Era o trabalho de John manter uma terra que achava que seus clientes poderiam se interessar, e com o que parecia ser uma bela visão para o campo, achou que seria interessante para um rico empresário apaixonado pelas terras escocesas.

Na curta viagem de volta, John se sentiu compelido a ficar olhando para a colina por cima do ombro e estava convencido que seus instintos profissionais diziam-no que devia investigar a respeito mais de perto. Depois da irritante resistência do fazendeiro Dale, ele se rendeu e quebrou o silencio falando brevemente sobre o assunto, com óbvio desdém por aquela terra incomum. Quando perguntado a respeito de quem pertencia, o fazendeiro zombou dizendo apenas "Ninguém é dono daquele lugar, e ninguém vai lá." Não disse mais muita coisa, mas antes de John entrar na pousada, o homem pousou a mão em seu ombro e o advertiu para deixar a colina em paz, que era perigosa e que esperava não ter que falar sobre aquilo nunca mais. Enquanto Dale parecia sentir medo de apenas mencionar aquilo, a impressão predominante era que o velho estava dominado por uma tristeza profunda; uma que era melhor ser deixada sozinha.

Por mais fascinado que John tinha ficado com o aviso do fazendeiro, não era a primeira vez que batia de frente com superstições locais - algo que ele, com certeza, nunca tinha dado ouvidos, caso contrário, teria perdido tempo, alguns ótimos lotes de terra e propriedade ao longo dos anos. As histórias dos moradores sempre pareciam girar em volta de lugares mais antigos e remotos da Grã-Bretanha. No passado ele tinha ouvido longos contos sobre casas abandonadas que carregavam manchas de um ato criminoso, ou matas que não podiam ser desmatadas pelo medo do que vivam nelas, mas sem exceção nada desagradável acontecera. Não havia solidez perante os mitos, e enquanto adorava ouvir os relatos de assombrações e seres estranhos que rondavam os pântanos e campos abertos, ele tinha pouco tempo para isso em sua vida corrida e trabalho. Essas histórias eram uma distração divertida, mas além do entretenimento, eram de pouca serventia.

Voltando à pousada, ele estava cansado e com vontade de ir para a cama, na esperança de concluir o negócio no dia seguinte, mas foi ao bar tomar alguma bebida antes de se retirar para seu quarto. O senhorio parecia ser bastante amigável e estava contente por alguém ter ficado em sua pousada pois geralmente ela ficava vazia, mas seu comportamento amistoso mudou completamente com a menção da colina. Igualmente a Dale, o proprietário parecia relutante em dar qualquer informação detalhada sobre o assunto e providenciou uma advertência citando "terra ruim" como motivo suficiente para deixa-la pra lá.

Sussurros e um tumulto sutil começou a surgir dos cantos escuros do pub enquanto moradores pareciam perturbados com as perguntas de John. Ninguém se aproximou, mas ele estava atento do desconforto em volta. Seu comentário " Parece que a colina é assombrada" que deveria ter sido tomada como uma piada, provocou apenas o silêncio. A ausência de som o fez sentir mal recebido. Rapidamente, ele terminou sua bebida e enquanto ia andando para as escadas uma mulher jovem tocou-lhe o ombro e sussurrou em seu ouvido "Por favor, não vá para a colina, ninguém jamais volta".

O senhorio estava ao alcance de voz e rapidamente reprendeu a menina por apenas mencionar aquilo, em seguida virou-se de costas e enquanto limpava um copo de cerveja, disse enquanto gaguejava: "Durma bem, senhor. Espero que você consiga concluir o seu negócio amanhã e voltar o mais rápido possível para Londres".

Para John soou mais como um aviso do que um simples boa noite.

No dia seguinte ele se levantou cedo e fez seu caminho ao primeiro andar e foi recebido novamente pelo senhorio, mas esse agora permanecia relativamente quieto, o que John achou estranho pois ele tinha passado uma imagem tagarela no dia anterior. Descartando o anfitrião apenas como uma pessoa que não era chegado em manhãs, John tomou seu café e fez seu caminho em direção a fazenda de Dale para terminar a compra dos terrenos.

Enquanto ele dirigia pelas estradas calmas do campo, apreciando a paisagem que continuava impressionante mesmo em um dia nublado, a fazendo foi se mostrando ao longe, e o mesmo fez a colina logo atrás. Ele pensou que essa parecia mais predominante ou grandiosa do que o dia anterior, com sua estrutura torta se inclinando-se para a vila, mas rapidamente sacudiu esses pensamentos da cabeça, pensando neles como apenas um efeito colateral do comportamento supersticioso dos moradores locais. Mas mesmo assim, havia algo sobre aquele lugar.


Continua na Parte 3...

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

On A Hill - Sob a Colina - Parte 1


Olá amigos, vou estar trazendo para o blog o livro Best-Seller em formato web do escritor Michel Whitehouse, vou estar dividindo em dez partes, espero que apreciem a leitura., você pode comprar o livro em inglês por aqui:

Os acontecimentos dos últimos dias têm tanto abalado minha compreensão do mundo, quanto me deixado sem disposição e perplexo. No entanto, eu sinto que tenho que organizar esses eventos na minha mente, e sou obrigado a estruturar as terríveis coisas que eu vi para que assim eu as entenda melhor, para que minha mente tenha talvez um descanso - uma necessidade de enumerar tudo que aconteceu.

Foi totalmente por acaso que conheci John R---. Era primavera, e os primeiros açafrões estavam saindo bem contra os últimos resquícios de gelo que o inverno havia produzido. Eu estava em pesquisa para um artigo que estava escrevendo para uma publicação que era, digamos assim, mais do que respeitável, quando me vi à mercê durante a noite em uma pequena aldeia das montanhas.

Todo o calvário tinha sido frustrante e no mínimo cansativo. Supostamente, eu deveria estar de volta a Glasgow naquela mesma noite para digitar minhas anotações e espantar a neblina que vinha acompanhando minhas tentativas de escrita. Estar, em uma pequena vila com apenas uma rua e um pub (que também era uma pousada), o qual parecia não ter sido redecorado desde a idade das trevas, não era minha ideia de conforto caseiro; especialmente depois de algumas semanas de viagem constante, entrevistas intermináveis, e mais de uma noite sem descanso em uma cama suja ou café da manhã.

Havia acontecido um pequeno afundamento na estrada de uma cidade sobre a qual tinha feito impossível que o ônibus continuasse viajando e, mais importante para mim, me levar à segurança. Após vários telefonemas tentando outros meios de continuar a viajar, pareceu que eu não ia a nenhum lugar até de manhã cedo. O sonolento pub/pousada tinha sido carinhosamente intitulado de O lorde de Dungorth - parecendo que poderia desabar em cima de mim a qualquer momento, para finalizar ela cheia de vigas de madeira deformada e uma clientela que pareciam tão quebradiças quanto - teria de ser minha casa durante a noite.

Depois de falar com o dono, um homem alto pontiagudo na casa dos cinquenta, fui gentilmente cedido um pequeno quarto no andar de cima que claramente não tinha sido usado em - ou limpo - fazia um bom tempo. Mesmo assim, as pessoas eram até legais e depois de um jantar básico mas agradável de comida local, eu me sentei confortavelmente em uma poltrona antiga que ficava perto do bar, tomando a decisão de matar o tédio com alguns litros da cerveja local e uma garrafa de vinho. As chamas dançavam logo a minha frente e quando o efeito entorpecente do álcool começou a fazer efeito, eu estava até contente - quase feliz de estar em um ambiente tão rústico. A vila poderia até ser meio triste, mas contra os ventos frios lá fora e um céu escurecendo, a pousada podia ser considerada charmosa.

Eu não tenho certeza o quanto de tempo eu estava sentado ali, hipnotizado pelo calor da lareira e algumas taças de vinho tinto, mas tornou-se evidente que eu estava acompanhado de outro hóspede da pousada. Ele se sentou perto de mim em uma poltrona larga e desgasta do outro lado da lareira, e ficou lá olhando para as chamas tremeluzentes.

Ele parecia curiosamente em disposição. Exteriormente ele parecia ser relativamente jovem - provavelmente em seus trinta e poucos anos - mas sua persona era inundada de uma fragilidade que normalmente não se esperava ver em um homem de sua idade. Seu rosto brilhava à luz do fogo, carregando com ela uma preocupação e linhas quem traíram uma agitação interna; seus olhos desfocados e suas mãos tremendo lentamente enquanto as aquecia no calor da lareira.

'Posso te ajudar?' Eu ouvi as palavras, mas não as registrei até que elas fosses repetidas.

'Desculpe-me, posso te ajudar?' O homem se dirigiu a mim de forma afiada, e fiquei surpreso ao perceber que estava olhando para ele por alguns minutos.

'Não, não é isso,' Eu respondi me desculpando. 'Eu... eu achei ter te reconhecido.'

Quando ele se virou para mim ele mostrou em sua expressão um olhar de descrença na minha mentira óbvia, mas felizmente, não sem um pequeno vestígio de bom humor.

'Desculpa se fui um pouco grosso com você,' ele disse. 'É só que eu estou cansado das pessoas ficarem me encarando por aqui.' Ele ergueu sua voz tentando fazer com que ela chegasse aos ouvidos dos gatos pingados que bebiam pub. Senti que os presentes tentavam evitar o seu olhar.

Partimos então para uma hora de conversa fiada. Seu nome era John R---- e ele era um agente de aquisição de terras de Londres. Ele alegou estar avaliando um lugar próximo, que um fazendeiro local estava disposto a vender para os promotores imobiliários, mas imediatamente senti que ele não estava à vontade para falar de seu trabalho. Na verdade, ele rapidamente mudou o foco da conversa inteiramente para mim; meu trabalho, vida, família, qualquer coisa. Era como se ele precisasse continuar falando comigo para manter a mente dele distraída para esconder sua ansiedade. Toda vez que eu tentava perguntar algo sobre ele ou sua vida, ele me dava uma resposta de uma ou duas palavras, ou ignorava e fazia sua própria pergunta.

Finalmente a conversa tomou seu curso, e por um momento nó sentamos em silêncio; os únicos sons vindos de alguns locais que passavam pelo pub e o tintilar ocasional de copos vazios enquanto sendo lavados pelo proprietário.

O pub agora estava visivelmente mais escuro, com a pouca luz fornecido por algumas pequenas lâmpadas de teto e o fogo que continuou a crepitar e tremular a noite toda. Me virei em direção a uma janela que dava pra fora da pousada, sem ver nada além de escuridão. Em seguida, as palavras simplesmente saíram da minha boca, sem eu perceber ou ter tempo de impedi-las. "Por que as pessoas te observam, John?"

Houve uma longa pausa enquanto eu olhava para ele esperando por uma resposta, seus olhos fixos no chão, mas seu rosto estampado com preocupação. Eu não esperava uma resposta profunda, dado o jeito da nossa conversa anterior, então continuei a tomar meu vinho quando de repente ele respondeu eu um tom sombrio: "Todos eles sabem, mas não tem coragem de falar a respeito." Se virando em direção ao poucos bebedores ainda no pub ele gritou "Eles todos estão com medo!".

A resposta do proprietário e seus consumidores foi apenas o silêncio. Eles pareciam ignorar inteiramente a acusação de John, com apenas uma breve hesitação de movimento ou conversa provava que eles realmente tinham ouvido a explosão momentânea. Eu não esperava uma resposta tão volátil, mas havia desespero naquele grito; ódio e frustração. Então, olhando diretamente para mim de um jeito que só posso descrever como uma mistura de medo e desilusão, ele abriu a boca como se fosse falar de novo, antes de hesitar mais uma vez. Eu senti que o homem, no fundo, queria livrar-se de um fardo, como se um pedaço tóxico de informação estava chateado sua alma.

Como escritor, minha criatividade foi cativada pela possibilidade de um conto fascinante, talvez uma que eu pudesse usar como base em um artigo ou história futura. Prevendo que agora só precisava de um empurrão para ganhar sua confiança, me inclinei e sussurrei "O que houve?" cheio de sentimento conflitante. Eu estava sentindo que estava perto de tornar-me a par de alguma coisa importante, mas pela sua tremedeira e seu comportamento ansioso, eu temia o que aquilo podia ser.

Um instante passou, e era como se todo o salão tivesse caído sob a sombra de um silêncio evidente, aqueles por perto ouvindo de seus cantos tenebrosos e não convidativos. Então ele falou "Se você quiser ser gentil e compartilhar seu vinho comigo, eu ficaria feliz em lhe dizer", disse ele em voz baixa.

Ele não precisou dizer duas vezes. Me levantei da minha cadeira e pedi no bar uma segunda garrafa e mais uma taça para dividir com meu companheiro. Houve uma hesitação peculiar quando o proprietário pegava ambos na prateleira logo atrás, colocando-os em minha frente. Quando voltei ao meu lugar, eu sabia que os presentes estavam me observando. Senti em meus ossos que havia algo desconfortavelmente sufocante nos olhares; olhares acusatórios mergulhados em medo.

Eu enchi uma taça de vinho, do qual John bebeu em um gole só - uma visão que eu conhecia muito bem, como de um homem que naufragado em um tumor maligno que queima por dentro. Depois de encher mais uma vez, coloquei a garrafa no chão entre nós esperando ele contar sua história.

Depois de olhar a bebida por um momento, ele levantou a cabeça e olhando fixamente para mim, e em seguida como se exorcizasse um fardo de sua alma, ele começou.


Continua na Parte 2...

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Uma Vida Despedaçada



Não sei quando você lerá isso, mas posso contar quando começou: eu estava caminhado solitariamente pelo bosque quando a entidade veio até mim. Era além de um borrão. Era, por falta de um termo melhor, a ausência de significado. Onde se escondia, não haviam árvores; onde se aproximava, não havia grama; com um arcar, pulou em mim, e não havia nenhuma brisa de movimentação. Na verdade, não havia ar algum.


Enquanto me atingia, senti a sensação distinta de garras perfurando-me em algum lugar que não podia ser visto; algum lugar que nunca sentira antes. Minhas mãos, minhas pernas, meu torso pareciam bem e eu não sangrava, mas sabia que tinha me ferido de certa forma. Com medo, corri de volta para casa, podia perceber que agora eu era menos. Um vago cansaço pairava em mim, e as vezes era difícil manter o foco.


A solução nessa fase inicial era muito simples: uma grande xícara de café fazia com que eu me sentisse normal novamente.


Por um tempo, aquele sútil aperto em meu espírito se perdeu no fluxo intenso da cafeína em meu sistema. Na verdade, você pode dizer que minha vida começou naquela semana, pois foi quando conheci Mar. Ela e eu nos dávamos muito bem e, para ser honesto, tenho quase certeza que me apaixonei quando nos falamos pelo telefone antes mesmo de vê-la com meus próprios olhos.


Era quase como se as fortes emoções daquela primeira semana fizesse a entidade lutar de novo - ainda estava comigo, cravado em alguma parte de meu ser.


Os primeiros incidentes foram pequenos, e quase não me preocupei. Certa manhã, a cor do carro de um dos meus vizinhos mudou de um azul escuro para preto, fiquei olhando-o antes de sacudir a cabeça e deixando aquilo para lá. Dois dias depois, o nome de um colega de trabalho mudou de Fred para Dan. Cuidadosamente, questionei sobre com outras pessoas, mas todos me diziam que o nome dele sempre fora Dan. Achei que tinha simplesmente me enganado.


Então, por mais idiota que possa soar, eu estava mijando no banheiro de casa quando de repente me encontrei em uma rua aleatória. Ainda estava vestido com meu pijama, calças abaixadas e mijando - mas agora sendo observado por uma dúzia de pessoas em um ponto de ônibus lotado. Horrorizado, vesti minha roupa e corri antes que alguém chamasse a polícia. Consegui chegar em casa, mas a experiência me forçou a admitir que eu corria perigo. A entidade estava fazendo algo, mas eu não entendia o que era para conseguir fazer algo a respeito.

Mar apareceu naquela noite, mas ela tinha sua própria chave.

"Ei," Perguntei, confuso. "Como você conseguiu essa chave?"

Ela riu. "Você é um fofo. Você tem certeza que está tudo certo sobre essa decisão?" Ela abriu uma porta e entrou em um cômodo cheio de caixas. "Sei que morar junto é um grande passo, especialmente para nós que estamos namorando só a três meses."

Morar juntos? Eu literalmente tinha a conhecido semana passada. Porém, minha mãe sempre me chamou de espertinho por um motivo. Eu sabia quando calar a boca. Ao invés de fazer uma cena, falei que tudo estava bem - então fui para meu quarto e comecei a investigar.

Minhas coisas estavam exatamente onde eu as deixara, sem sinal de uma brecha de três meses, mas encontrei algo que era fora do normal: a data. Estremeci de raiva enquanto processava a verdade.

A entidade tinha tirado três meses da minha vida.

Com que diabos eu estava lidando? Que tipo de criatura conseguia consumir pedaços da alma de alguém desse jeito? Eu havia perdido a melhor parte do começo de um novo relacionamento, e nunca entenderia histórias compartilhadas ou piadas internas desse período. Algo absurdamente precioso tinha sido arrancado de mim, e eu estava furioso.

Essa fúria ajudou a suprimir a entidade. Eu nunca ingeria álcool. Bebia café religiosamente. Checava a data todos os dias quando acordava. Por três anos, consegui viver cada dia enquanto observava nada mais do que minimas alterações. Um fato social aqui ou ali - o emprego de alguém, quantos filhos certo amigo tinha, a organização das casas em alguma rua em específico, o horário que meu programa preferido passava na TV, essas coisas. Eram essas pequenas mudanças que me faziam lembrar que a criatura ainda estava com suas garras enfiadas no meu espírito. Nunca nesses três anos eu me deixei sair do estado de alerta.

Um dia, me descuidei. Me deixei ficar obcecado com o episódio final da minha série favorita. Era viciante, uma história fantástica. No ápice do programa, um menininho veio até minha poltrona e sacudiu meu braço.

Surpreso, perguntei, "Quem é você? Como você entrou aqui?"

Ele riu e sorriu abertamente. "Papai bobão!"

Meu coração pareceu ficar do tamanho de uma bolinha de gude. Eu soube imediatamente o que tinha acontecido. Depois de algumas perguntas disfarçadas, descobri que ele tinha dois anos de idade - e que era meu filho.

A agonia e o aperto em meu coração eram quase insuportáveis. Eu não somente tinha perdido o nascimento do meu filho, como também nunca veria seus primeiros anos de vida. Mar e eu tínhamos obviamente nos casado e começado uma família durante o tempo perdido, e eu não fazia ideia das tristezas e alegrias que esses anos tinham me proporcionado.

Estava nevando lá fora. Com meu repentino filho em meu colo, sentei e observei os flocos do lado de fora. Que tipo de vida eu teria se os lapsos de concentração podiam me custar anos? Precisava de ajuda.

A igreja não fazia ideia o que fazer. Os padres não acreditavam em mim, e disseram que eu tinha problemas de saúde, que não era um caso de possessão.

Os médicos fazia menos ideia ainda. Nada aparecia nos exames e testes feitos, mas aceitavam com grandes sorrisos quantias absurdas do meu dinheiro em troca de nada.

Quando comecei a ficar sem opção, decidi contar para Mar. Não havia como saber como era o seu ponto de vista. Eu era diferente quando não estava lá? Eu levava nosso filho para a escolinha? Fazia meu trabalho, meu papel? Claramente, fazia, pois ela parecia não desconfiar de nada, mas ainda fiquei com aquela terrível sensação de que algo devia estar faltando em sua vida, porque eu estava e não estava lá ao mesmo tempo.

Mas na noite em que eu preparei um belo jantar para a revelação, ela não abriu a porta com sua chave, e deu três suaves batidas. Ela estava vestida em um lindo vestido.

Ficou agradavelmente surpresa com a mesa posta. "Um jantar chique para um segundo encontro? Eu sabia que você era um bom partido."

Graças ao bom Senhor sei manter meu bico calado. Se tivesse balbuciado alguma coisa sobre sermos casados e termos um filho, provavelmente ela teria corrido para as colinas. Peguei seu casaco e nos sentamos para ter nosso segundo encontro.

Com perguntas escolhidas a dedo, consegui deduzir a verdade. Realmente era nosso segundo encontro. Ela viu alívio e felicidade em mim, mas interpretou isso como nervosismo de encontro. Eu simplesmente estava estasiado ao perceber que a entidade não estava mais comendo porções da minha vida. Os sintomas, como agora estava começando a percebê-los, eram mais como consequências de uma alma despedaçada. A criatura havia me ferido; me quebrado em pedaços. Talvez meu destino era viver minha vida fora de ordem, mas pelo menos eu a viveria.

E assim seguiu por alguns anos, pela minha perspectiva. Enquanto pequenas mudanças na política ou geográficas ocorriam diariamente, mudanças bruscas aconteciam dentro de alguns meses. Quando me encontrava em um novo local e tempo da minha vida, apenas me calava e ouvia, tendo certeza de explorar bem o terreno antes de cometer algum erro irreversível. No maior pulo de tempo, conheci meu neto de seis anos de idade, onde perguntei o que ele gostaria de ser quando crescer. "Escritor," me disse. Falei que era uma ótima ideia.

Depois, voltei ao segundo mês de namoro com Mar, onde tive a melhor noite de todas com ela no píer. Quando digo a melhor, quero dizer a melhor da minha vida. Sabendo o quão especial ela iria se tornar para mim, eu pedi para que viesse morar comigo. Comecei a viver os momentos que eu havia perdido e então percebi que, na verdade, eu nunca não estive lá. Eu sempre estava lá - eventualmente. Quando estávamos trazendo suas coisas para dentro de casa, parou por um momento e disse como admirava o meu amor, que era como se eu já a conhecesse pela vida toda e que nunca duvidei de quem realmente era.

Essa foi a primeira vez que ri de verdade, livremente e com todo meu coração, desde que a entidade tinha me ferido. Ela estava certa sobre meu amor por ela, mas o que considerava uma analogia boba e romântica era na verdade a realidade. Eu conhecia-a por toda minha vida, e eu tinha feito as pazes com a minha situação. Não era tão ruim assim dar uma espiada nos bons momentos futuros.

Mas é claro que não estaria escrevendo isso se não tivesse piorado. A entidade ainda estava em mim. Não tinha me ferido e ido para longe, como eu quis acreditar. O mais perto que posso descrever do meu entendimento disso é que a criatura estava se enterrando cada vez mais fundo na minha psique, fraturando-a em pedaços ainda menores. Ao invés de meses entre cada pulo, comecei a ter apenas semanas. Assim que notei o padrão, fiquei com medo de que meu destino fosse começar a mudar de tempos da minha vida em cada batida que meu coração fazia, para sempre confuso, para sempre perdido. Tendo apenas um instante em cada tempo significava que nunca mais eu conseguiria falar com ninguém, nunca conseguiria sustentar uma conversa, nunca expressaria ou receberia amor.

Enquanto as profundezas desse temor se esquentavam no meu peito, sentei em uma velha versão de mim e assisti os flocos de neve caindo do lado de fora. Isso era uma constante na minha vida: para o clima não importava quem eu era ou as dores que tinha que enfrentar. A natureza sempre estava lá. O cair da neve era uma ancora que fazia com que eu continuasse ali; a pura emoção de paz que me trazia era como uma panaceia em minhas feridas mentais, e eu nunca tinha mudado de tempo enquanto assistia o padrão de queda branco, pensando nas vezes em que tinha construído um boneco de neve quando criança.

Um adolescente tocou meu braço. "Vovô?"

"Uh?" Ele me arrancou dos meus pensamentos, então fui menos cuidadoso do que de costume. "Quem é você?"

Deu um meio sorriso, como se não soubesse se era uma brincadeira da minha parte. Me entregando um bolo de papéis, disse, "É minha primeira tentativa de escrever um romance. Você pode ler e me dizer o que acha?"

Ahh, claro. "Seguindo os sonhos de ser um escritor, estou vendo."

Ele ficou vermelho como um pimentão. "Tentando, né."

"Tá bom. Saia daqui, vou ler isso agora mesmo." As palavras saiam embaçadas e, irritado, procurei pelos óculos que deveria precisar para ler. Ser velho era horrível, e eu só queria voltar para meus anos mais jovens - mas não antes de ler aquelas páginas. Encontrei meus óculos no bolso do meu moletom, e comecei a leitura. Mar entrava e saia do cômodo, ainda linda, mas precisava me focar. Não sabia quanto tempo ainda tinha ali.

Parecia que tínhamos parentes visitando. Era Natal? Um par de adultos e algumas crianças que eu não reconhecia trotearam pelo corredor, e vi meu filho, agora um adulto, passando pela porta. Em um grupo, uma parte da família começou a andar de trenó lá fora.

Finalmente, terminei de ler a história, e chamei meu neto. Desceu correndo as escadas e entrou na sala. "O que achou?"

"Bem, é péssima," Falei verdadeiramente. "Mas é péssima pelas razões certas. Você ainda é jovem, então seus personagens se comportam como pessoas jovens, mas a estrutura da história em si é sólida." Pausei. "Eu não esperava que viraria uma história de terror."

Ele assentiu. "É uma reflexão dos tempos. As expectativas para o futuro são sombrias, não esperançosas como eram antigamente."

"Você é jovem demais para saber disso," falei. Uma ideia veio até mim. "Se você gosta de terror, sabe um pouco sobre criaturas estranhas?"

"Claro. Eu leio tido que posso. Adoro."

Cautelosamente, olhei as entradas para o nosso cômodo. Todos estavam ocupados lá fora. Pela primeira vez, me abri com alguém sobre o que eu estava passando. Em um tom apressado, contei para ele sobre minha consciência fragmentada.

Para um adolescente, absorveu bem. "Você tá falando sério?"

"Sim."

Vestiu o olhar determinado de um adulto que aceita uma missão importante. "Vou procurar sobre, ver o que posso descobrir. Você devia começar a escrever tudo que acontece. Construir um banco de dados. Talvez assim vamos conseguir mapear suas feridas mentais."

Uau. "Parece um bom plano." Fiquei surpreso. Isso fazia sentido, e eu não esperava que tivesse uma reação tão séria. "Mas como vou conseguir deixar as anotações em um lugar só?"

"Vamos arranjar algum lugar para colocar isso," Falou, franzindo a testa. "Então, eu coleto os dados, e podemos traçar os caminhos que está fazendo pela sua vida, descobrir se existe um padrão."

Pela primeira vez depois da piora, senti esperança. "O que acha de colocar debaixo da escada? Ninguém nunca vai lá."

"Claro." Ele se virou e saiu da sala.

Espiei, e vi ele mexendo em algum lugar perto da escada.

Finalmente, voltou com uma caixa que colocou em cima do carpete, e ao abrir revelou muitas e muitas folhas de papel. "Puta merda!" Exclamou.

Abalado, pisquei rapidamente, perdoando sua boca-suja por causa do choque. "Eu escrevi isso?"

Ele olhou para mim atordoado. "Sim! Ou pelo menos, você vai. Você ainda precisa escrevê-los e colocá-los debaixo da escada." Olhou de volta para os papéis e então fechou a caixa. "Bem, acho que é melhor você não ver o que está escrito. Isso podia tornar as coisas mais estranhas ainda."


Isso eu entendia bem. "Claro."

Ele engoliu a seco. "Tem mais ou menos umas cinquenta caixas como essa lá em baixo, todas cheias. Vou demorar para decifrar tudo isso." Fez um tom de voz muito sério. "Mas vou te salvar, vovô. Porque acho que ninguém mais pode além de mim."

Lágrimas corriam pelo meu rosto e não consegui evitar de chorar um pouco. Eu não tinha percebido quão solitário me tornara na minha prisão de pulos até encontrar alguém que finalmente me entendia. "Obrigado. Muito obrigado."

E então eu era jovem de novo, em uma terça-feira aleatória, no trabalho. Assim que a tristeza e o alívio passaram, ódio e determinação tomaram conta. Depois de sair do trabalho, peguei umas folhas e comecei a escrever. Enquanto as semanas iam passando em minha volta, enquanto essas semanas viravam dias, depois horas, eu escrevia em todo momento livre que tinha sobre quando e onde estava. Coloquei-as debaixo da escada fora de ordem; minha primeira caixa na verdade era a trigésima, e minha última caixa era a primeira. Assim que fiz cinquenta caixas escritas da minha perspectiva - e quando meus pulos agora duravam minutos - eu soube que tudo estava nas mãos de meu neto.

Abaixei a cabeça e parei de olhar. Não conseguia mais aguentar o rio de mudanças. Nomes e lugares e datas e empregos e cores e pessoas estavam todos diferentes e errados.

Eu nunca fora tão velho. Estava sentado, olhando a neve cair. Um homem com pelo menso trinta anos, que eu vagamente reconhecia entrou na sala. "Venha, acho que finalmente descobri."

Eu era tão frágil que me mexer doía muito. "Você é ele? Você é meu neto?"

"Sim." Me levou até um quarto cheio de estranhos equipamentos e me sentou em uma cadeira de borracha virada para um espelho duas vezes maior que a altura de um homem. "O padrão finalmente se revelou."

"Por quanto tempo você trabalhou nisso?" Perguntei, horrorizado. "Diga que você não perdeu sua vida como estou perdendo a minha!"

Sua expressão era tanto fria como uma pedra e furiosamente resoluta. "Valerá a pena." Ele trouxe dois bastões de metal para perto do meu braço e então assentiu para o espelho. "Olhe. Esse choque é precisamente calibrado."

O choque de seu equipamento foi surpreendente, mas não doloroso. No espelho, vi uma silhueta rápida de luz aparecer por cima de meus ombros e cabeça. A eletricidade se moveu pela criatura como uma onda, brevemente revelando a terrível natureza do que estava acontecendo comigo. Uma boca gorda como de uma sangue-suga estava grudada na parte de trás da minha cabeça, vinha até as minhas sobrancelhas e cobria ambas orelhas, e seu corpo de lesma caia sob meus ombros e adentrava na minha alma.

Era um parasita.

E estava se alimentando da minha mente.

Meu então adulto neto segurou minha mão enquanto eu era atordoado pelo terror. Depois de um breve momento, falou comigo. "Removê-lo será muito, muito doloroso. Você quer?"

Com medo, perguntei, "Mar está aqui?"

Sua expressão suavizou. "Não. Faz alguns anos que não."

Eu podia perceber pelos traços em seu rosto o que acontecera, mas não queria que fosse verdade. "Como?"

"Nós conversamos sobre isso bastante," respondeu. "Tem certeza que quer saber? Nunca faz você se sentir melhor."

Lágrimas se acumularam em meus olhos. "Então não ligo se doer, ou se eu morrer. Eu não quero estar em uma época onde ela não está viva."

Fez um som de simpatia e entendimento e então voltou para sua maquina para prender diversos fios, diodos, e outras partes de tecnologia em meus membros e testa. Enquanto fazia isso, falava. "Trabalhei por duas décadas para conseguir desvendar isso, e recebi muita ajuda de diversos outros pesquisadores e cientistas do ocultismo. Esse parasita tecnicamente não existe no nosso plano. É um dos últimos do seu tipo, os µ¬ßµ, e se alimenta dos plexos mentais, da alma e da consciência quântica/realidade. Quando detalhes como cores e nomes mudavam, você não estava ficando louco. A teia da sua existência estava perdendo alguns fios enquanto a criatura te devorava."

Não entendia por completo. Olhei para cima, confuso, enquanto ele colocava um círculo de eletrodos como uma coroa na minha cabeça, na exata linha onde a boca do parasita se encontrava. "O que é µ¬ßµ?"

Ele parou e ficou pálido. "Esqueci que você não sabe. Você é sortudo, acredite." Depois de um longo suspiro, começou a se mover de novo, e posicionou seus dedos perto de alguns interruptores. "Pronto? Isso aqui é feito para que seu sistema nervoso fique extremamente


insosso para o parasita, mas basicamente é uma terapia de choque."

Eu ainda podia ver o sorriso de Mar. Mesmo que estivesse morta, eu tinha estado com ela fazia poucos minutos. "Pode começar."

O clique do interruptor ecoou em meus ouvidos, e quase ri de tão suave que o choque era. Quase nem o sentia, no começo. Então, vi o espelho estremecer, e meu corpo naquele reflexo convulsionar. Ah. Não. Doía sim. Doía mais do que qualquer outra coisa que já sentira na vida. Só que era tão intenso que minha mente não tivera tempo ainda de processar imediatamente.

Enquanto minha visão tremia e um fogo queimava cada nervo do meu corpo, eu podia ver o reflexo da silhueta de luz do parasita se remexendo na minha cabeça, compartilhando de minha agonia. Tinha garras - seis membros de lagarto com garras em seu corpo de lesma - que se agarravam à mim para tentar continuar grudado.

A eletricidade fez com que minhas memórias se acendessem.

O sorriso de Mar, acima de todo o resto, brilhava em frente de uma lareira enquanto a neve caia na janela atrás dela. As bordas dessa memória começaram a se acender, e percebi que minha vida agora era uma linha continua de experiências - era apenas a consciência disso que tinha sido fragmentada pela voraz e diabólica criatura em meus ombros.

Eu nunca conseguira estar lá no nascimento de meu filho. Eu pulei diversas vezes em volta dessa memória, mas nunca vivenciei-la. Pela primeira vez, pude estar lá para segurar a mão de Mar e acompanhá-la.

Não. Não! Aquele momento onde eu segurava sua mão enquanto deitada em cama de hospital mudou para uma razão totalmente diferente. Não isso! Por que, Deus? Era tão cruel me fazer lembrar disso. Comecei a chorar enquanto enfermeiras corriam para o quarto. Eu não queria saber. Não queria passar pro aquela experiencia. Eu tinha visto todas as partes boas, mas não queria ver a pior delas - o fim inevitável que todos temos que encarar um dia.

Não valia a pena. Era contaminado. Toda a felicidade que recebi vinha com o dobro em dor.

O fogo em meu corpo e mente aumentaram em uma tortura continua, e gritei.

Meu grito virou um urro de surpresa quando as máquinas paravam e os choques lentamente diminuíam. A neve não estava mais caindo em volta da minha vida; eu estava caminhando na floresta em um dia claro de verão.

Meu Deus do céu.

Me virei para ver a criatura se aproximando. Era a mesma ausência de significado; o mesmo abismo na realidade. Rastejou em minha direção, assim como antes - mas dessa vez proferiu um som de ódio e foi embora. Me levantei, maravilhado por ser jovem de novo e por estar livre do parasita. Meu neto tinha realmente conseguido! Ele me tornara uma refeição sem-sal, assim o predador de alma e corpo foi procurar por outro lanche.

Voltei para casa tonto.

E enquanto eu estava lá, sentado, tentando processar tudo que acontecera, o telefone tocou. Eu sabia quem era. Era Marjorie, ligando pela primeira vez por um motivo aparentemente muito importante, o qual trinta anos depois me revelaria ter sido uma desculpa só para ouvir minha voz.

Mas tudo que eu conseguia enxergar era ela deitada em uma cama de hospital, morta. Acabaria com uma dor inexplicável e solidão. Eu me tornaria um velho, deixado sentando sozinho em uma casa vazia, sua alma gêmea não mais no mesmo plano. No final de tudo, eu só teria uma coisa: o prazer de me sentar e ver a neve cair pela janela.

Mas agora, graças ao meu neto, eu também teria minhas memórias. Seria um passeio de montanha-russa, não importa como fosse terminar.

Com um impulso repentino, atendi o telefone. Com um sorriso, perguntei. "Oi, quem fala?"

Mesmo que eu já soubesse.

Nota do autor: Juntos, eu e meu avô escrevemos o romance sobre sua vida. Infelizmente, seu Alzheimer progrediu rapidamente, e nunca conseguimos terminar. Ele ainda está vivo, mas imagino que, mentalmente, está em um lugar melhor do que sua casa de repouso. Gosto de pensar que está revivendo seus anos mais joviais, vivendo uma vida feliz, pois a realidade é muito mais fria. Está nevando hoje; ele ama a neve. Da última vez que eu o visitei, não conseguiu me reconhecer, mas sorriu para mim e ficamos juntos observando a neve cair lá fora..

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Rouge: a origem da proxy do slenderman - Seth Horror

Fala pessoal, essa é uma creepy enviada por um fã no e-mail do blog, se vocês gostarem eu posso estar trazendo outras, lembrando que agora vocês também podem enviar no nosso Instagram, espero que gostem!

   O homem adentra mais a fundo a densa floresta gritando em desespero o nome de sua namorada, eles haviam entrado juntos na floresta para fazer um piquenique mas depois de ter saído para fazer xixi a garota havia sumido, isso tinha sido as 15:50 da tarde e agora já eram 16:30 e o sol começava a dar seus primeiros sinais de mudança, era outono e o sol refletia as incontáveis folhas caídas no chão, enquanto o homem continuava gritando o nome da sua amada, ele sabia que havia algo errado, que algo muito ruim havia acontecido, quando havia ouvido os gritos de pavor de sua namorada, e viu varias marcas de mãos ensanguentadas nas arvores além de um nostálgico símbolo feito com alguma ferramenta cortante, o homem continua andando e a floresta começa a parecer mais assustadora quando ele tropeça em um cadáver de um grande cervo e quando olha em volta há outras dezenas de animais mortos além de roupas rasgadas penduradas nos galhos das arvores. Ate que finalmente vê sua namorada, a felicidade que durou alguns segundos logo se transforma em preocupação quando ele vê que ela esta totalmente ensanguentada e correndo quase exausta, ele grita o seu nome e ambos correm um para o outro. Ele a abraça fortemente e tocando suas costas sente enormes marcas que haviam cortado a roupa e feito profundos cortes.

Homem: Oque ouve ?! algum animal fez isso com você ?!

Mulher: foi ela... ela voltou... essa floresta, ela esta aqui !

Ambos ouvem sons de folhas sendo pisadas e então se viram na direção de origem do barulho, e eles avistam uma figura horrenda, é uma garota , ela usa uma mascara aterradora banhada em sangue e com enormes dentes desenhados ela usa um casaco esfarrapado e calças meio rasgadas além de botas pretas pesadas, e esta com as roupas totalmente banhadas em sangue, neste momento ambos estão paralisados ate que o homem vê que nas luvas que a garota esta utilizando há garras enormes de aço, pingando sangue, então uma memoria vem a sua cabeça e ele começa suar frio enquanto as lembranças retornam...

Sara não era uma garota comum, sua vida e sua criação estavam longe da de ser de uma criança normal, quando sua mãe logo após o casamento experimentou muita dor e sofrimento como ela mesma experimentara por toda sua vida, o pai dela Josh era um sádico que constantemente espancava sua mãe Ana, mesmo quando Ana estava gravida ele batia nela e ate chegara a apagar cigarros na barriga de Ana e ate a dar socos, sua forma de tortura preferida era colocar uma coleira de cachorro no pescoço de Ana e trancar ela no porão junto dos cães casa, que viviam em péssimas condições sem agua ou comida regularmente.

Quando Ana decidira fugir de casa com sua filha na barriga Josh a impediu e quando ia espancá-la na rua, a bolsa de Ana estourara, e Josh a levara para o hospital, quando sara finalmente nascera foi colocada nos braços da mãe , foi a conta certa de Ana olhar a filha, uma garotinha linda, e alguns segundos depois de abraçar a filha morrer por complicações no parto. A bebê ficara sob observação no hospital durante alguns dias e logo após foi levada para a casa por Josh, que por fora demonstrava imensa compaixão pelas pessoas mas por dentro sentia um ódio enorme da garota. Ele cuidara muito mal de sara, ate que quando sara completou 3 anos, Josh conhecera uma mulher chamada Sandra , um monstro exatamente como Josh, eles abusam e cuidam muito mal da menina e por conta do ódio que sentira por sara por ela ainda não saber falar, Sandra colocara a coleira nela e depois a trancou no porão junto dos cães.

Sandra: Ja que não sabe falar, vamos ver se aprende a latir haha

Os anos se passam e a garota continua a ser tratada como os cães da casa, comendo os mesmos restos e recebendo os mesmos maus tratos, nos invernos e noites frias que se passaram sara só sobrevivera pois se juntava junto dos cães em um canto do cômodo, cada ano que se passava sara estava mais se comportando como um cão, ela ate começara a latir e rosnar para Josh e Sandra quando algum deles descia para o porão. Quando ela chegara aos 12 anos seu corpo já estava mudando e seus algozes perceberam isso e resolveram tirar proveito, um casal amigo deles Paula e Ricardo pagava para abusar de sara. Os abusos continuaram ate quando a garota completou 13 anos, ela presenciou algo assustador, no meio da noite ela viu um homem diferente aparecer no porão, este homem não era normal, ele era enorme, tão algo que tinha que se encurvar para poder ficar em pé no porão, usava um terno preto e não tinha rosto, sara e os cães começaram a latir e ficaram apavorados com a presença repentina do do homem. Sandra e Josh descem furiosos com o barulho dos cães e o homem desaparece, e eles espancam os cães e sara logo após sobem novamente para ir dormir, enquanto sara muito machucada desmaia . Quando acorda esta em um lugar totalmente branco, ela olha em volta assustada e então vê novamente a figura do homem esguio, ela se assusta mas logo após sente uma calma e um conforto enorme com a presença dele, e então ela adormece.

Alguns meses se passam e frequentemente o homem esguio aparece no porão, sara não tem mais medo e mesmo com todos os abusos exteriores ela sabe que pode confiar nele. Ate que em uma noite, ela é teletransportada novamente para a outra dimensão e Slenderman toca a testa de sara, nesse momento ela se lembra de sua memoria mais antiga, ela se lembra de estar no colo de sua mãe e dela a abraçando e sorrindo, nesse momento lagrimas descem de seus olhos e ela as enxuga com suas mãos, ficando na primeira posição humana depois de anos, então ela reaparece no porão e é invadida por uma fúria enorme, uma fúria humana e animalesca que permanecera adormecida dentro de si so aumentando a cada abuso, então ela solta um alto e doloroso uivo, que é acompanhado pelos cães , Sara tenta se por em posição bípede e com muita dificuldade e quase caindo ela finalmente consegue e logo após solta outro alto uivo. Sandra que estava sozinha em casa pois Josh havia saído para fazer compras ouve os uivos e pega um bastão e desce as escadas do porão reclamando e xingando.

Sandra: Menina idiota, vira latas estupi...

Ela para de falar subitamente quando da de cara com sara que esta de pé.

Sandra: você esta... de pé...

Enquanto sara com um olhar de puro ódio começa a fitar Sandra, e nesse momento Sandra e invadida pelo medo e começa a recuar subindo lentamente as escadas de costa, e logo após se vira e começa a correr mas acaba tropeçando em um degrau, Sara começa a rosnar para Sandra e logo após com uma agilidade animalesca salta sobre o cercado que delimitava onde os cães ficavam, e sobe as escadas de quatro mordendo as costas de Sandra e a sacudindo, Sandra se vira dando uma cotovelada em sara que recua mas logo após morde seu braço arrancando um enorme naco de carne e morde novamente tentando chegar ao pescoço de Sandra.

Sandra: Me solta desgraçada !

Sandra diz pegando o bastão e batendo em sara que cambaleia para traz devido ao golpe, Sandra se levanta e avança novamente mas sara salta para traz e recua sendo encurralada aos poucos por Sandra na parede, Sara esta com medo e com a cabeça sangrando devido ao golpe de Sandra.

Sandra: Morre desgraçada !

Quando Sandra vai acertar novamente sara, sara por um segundo a mais desvia então quando ela olha para sua mão, ela vê que tem duas luvas com garras de metal enormes, ela avança sobre o braço de Sandra cortando a mão com um, único golpe e muito sangue esguicha da ferida enquanto Sandra grita desesperada e cai no chão, sara salta sobre ela e com suas garras começa a desferir enormes cortes no peito e no rosto de Sandra enquanto ela grita, logo ap[os mordendo sua traqueia e arrancando um pedaço fazendo Sandra morrer engasgada com o próprio sangue enquanto ela continua dilacerando com fúria o corpo de Sandra. Do porão ouvisse a porta da frente da casa de abrindo .

Josh: Sandra ! vem me ajudar com as compras

Sara se levanta e abre a porta do canil libertando os cães que começam a sair alegres, ate que quando sobem as escadas e veem Josh eles começam a rosnar para ele, e Josh começa a chuta-los e bater neles com um pedaço de madeira.

Então Josh ouve passos de alguém subindo as escadas.

Josh: Sandra, por que você soltou a merda dos cachor...

Ele para quando vê, é sara de pé totalmente ensanguentada.

Josh: sara... como você esta de... oque diabos você fez com a Sandra ? Em responde vadia !

Sara corre em direção a Josh que a acerta na cabeça com o pedaço de madeira , logo após a certando novamente mas Sara se levanta e faz um corte profundo no peito de Josh, mas ele furioso acerta outra vez a garota a fazendo bater na parede e cair no chão logo após lê dando um chute no estomago, ate que um dos cães avança em Josh mordendo sua perna e logo após alguns outros que começam a morder Josh, ate que Josh lutando puxa uma pistola de sua cintura e começa a atirar nos cães, depois se levantando e puxando o gatilho novamente mas as balas haviam acabado e os outros cães começaram a se aproximar rosnando para Josh que sem escolha recua e sai da casa logo após batendo a porta, e depois sai em direção ao seu galpão pegar sua espingarda. Sara esta caída olhando para o canto a figura alta de Slenderman no canto do cómodo, ate que em um piscar de olhos ela esta bem novamente como se as dores tivessem parado, ela se levanta e quando se vê no espelho ela esta vestida com um moletom vermelho, uma calça jeans e botas pretas e na mesa ao lado ela vê uma mascara, como que sabendo oque fazer ela põe a mascara. Josh pega a espingarda e quando esta se aproximando da casa ele ouve a porta sendo aberta e vê a matilha de cães sair furiosos rosnando, e eles o atacam novamente mas Josh atira em suas direções e eles recuam.

Josh: pode vir vira lata nojento !

Sara sai da casa e anda em direção a Josh ainda com dificuldade em andar de forma bípede, e Josh aponto a arma em direção de sara.

Josh: Onde você arranjou essas roupas droga ! e como esta andando assim ! você é so uma aberração, vou te mandar direto pro inferno pra você se encontrar com a vadia da sua mãe !

Quando Josh vai atirar sua cabeça se enche de estática e ele larga a arma e tampa os ouvidos com as mãos, enquanto sara se aproxima e começa a golpear Josh que cambaleia para traz, logo após corre para a floresta , onde é perseguido e caçado por Sara e pelos cães, ate que sara correndo de quatro joga Josh no chão e começa a corta-lo novamente enquanto ele grita .

Josh: Pare ! pare por favor sara ! filha !

E então sara finalmente balbucia e diz suas primeiras palavras enquanto estripa Josh.

Sara: Me.. meu nome é Ro.. Rouge !

No dia seguinte Ricardo e Paula estão chegando a casa de Josh e Sandra para abusar de sara, mas veem que a casa esta cercada por fitas amarelas de investigação e há muitos policiais em volta, e quando vão entrar são parador por um deles .

Policial: Não podem passar senhores.

Ricardo: oque ouve ?

Policial: é a cena de um crime o casal que morava aqui foi assassinado.

Paula: mas oque ?! como ?

Policial: parece que foi usada algum tipo de lamina muito afiada além de que foram encontrados varias mordidas de cães e algumas humanas nos corpos das vitimas.

Quando eles olham para a casa veem varias marcas de garras e e um grande símbolo desenhado com sangue na porta, um circulo com um x no meio.

Ricardo e Paula saem da cena do crime e vivem suas vidas normais depois disso ainda pagando para abusar de crianças, e vários processos são abertos contra eles mas nenhum consegue ser provado se é verdadeiro por falta de evidencias.

Ate que alguns anos depois eles vão fazer um piquenique em uma floresta, que já tinha péssimas fama de desaparecimentos, Paula sai para fazer xixi e então Ricardo ouve o grito da namorada, ele vai ate lá mas não a encontra e fica preocupado e vê nas arvores marcas de sangue de garras e o símbolo. Ate que ele encontra Paula que esta toda ensanguentada.

Paula: foi ela... ela voltou... essa floresta, ela esta aqui !

Rouge então aparece os observando com todo o ódio novamente mas agora com um desejo de crueldade muito maior. Eles começam a recuar devagar mas Rouge se abaixa e começa a rosnar como um cão para eles e logo após avança com fúria sobre Paula, aprofundado suas garras no estomago dela logo após puxando ate em cima rasgando tudo e fazendo muito sangue descer e esguichar, Ricardo fica paralisado e Rouge salta sobre ele o jogando no chão e começa a golpeá-lo e estripá-lo enquanto ele grita, e enquanto os rosnados de Rouge se misturam com suas gargalhadas sádicas...

Autor: Seth Horror

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Alimente O Porco

Abri meus olhos devagar. 
Minha cabeça parecia flutuar e uma dor maçante cercava minha garganta. Sentia sede. Isso foi a primeira coisa que notei. 
Umedeci meus lábios secos enquanto os meus arredores desvaneciam de foco. Meu corpo doía e percebi que estava amarrado firmemente a uma cadeira de metal no meio de um quarto vazio. A paredes de concreto estavam manchadas e sujas, debaixo dos meus pés descalços estava molhado e frio.

Havia uma única lâmpada, balançando do teto por uma corda. Projetava uma sombra em movimento. Uma porta aberta está diante de mim, mas não conseguia ver nada além de uma parede de um corredor.

Tentei clarear minha mente, tentei lembrar como havia chegado ali. Fechei meus olhos com força e me forcei a não entrar em pânico. Diminuí a velocidade da minha respiração e foquei em meus pensamentos, tentando me forçar a lembrar o motivo para eu estar ali.

Eu não lembrava de nada.

Abri meus olhos e soltei o ar, minha garganta latejante ressecada. Podia ouvir sons ecoando pelas paredes de fora do corredor. Gritos, batidas, urros, todos muito distantes, mas isso não ajudou a acalmar meus nervos.

"Olá?!" Falei alto, as palavras parecendo romper minhas cordas vocais. Senti meu peito se contrair pela dor, mas pigarreei e gritei de novo.

"Tem alguém aí?! Olá?!"

O corredor escuro continuou silencioso exceto pelos ecos constantes. Calei a boca e tentei me desvencilhar de minhas amarras, mas a corda estava amarrada de um jeito impossivelmente apertado. Lutei contra minha imaginação que enchia minha mente de cenários horripilantes do que me esperava. Se eu conseguisse lembrar pelo menos de alguma coisinha!

De repente, passos surgiram da porta, em um padrão rápido de pés pequenos. Minhas esperanças se renovaram e voltei minha atenção para a porta, rezando que fosse ajuda.

Um menino correu para dentro da sala, usando um onesie vermelho, dos tipos que vem com meias acopladas. Sobre seu rosto estava uma máscara de plástico de Diabo. Os buracos dos olhos revelavam duas bolitas azuis enormes, olhos que me me olhavam com curiosidade. Meio atordoado, abri a boca para falar algo quando notei que algo estava estranho. Seus olhos eram enormes, impossivelmente redondos e esbugalhados. Fez com que um arrepio agoniante descesse por minha espinha, mas deixei de lado. A criança poderia me libertar.

"Ei!" Cochichei, urgentemente, "Ei menino, você pode me tirar daqui?!"

O garoto deu um passo para frente, virando a cabeça de lado, mas ainda em silêncio.

Sacudi meus braços amarrados contra a cadeira, "Me solte, por favor, eu não devia estar aqui, alguém cometeu algum erro!"

O garoto me observou por de trás da máscara e parou bem na minha frente. Se inclinou para frente, sussurrando, sua voz como seda molhada, "Você fez uma coisa ruim..."

Confuso, sacudi a cabeça, " Não! Não, isso é um erro! Eu não fiz nada!"

Os enormes olhos azuis se encheram de tristeza, "Ah, você fez sim, algo muito, muito ruim..."

Sacudi novamente a cabeça, mais violentamente, "Não! Me perdoe! Eu não lembro, por favor, me deixe sair dessa cadeira!"

Subitamente, antes que eu ou ele pudéssemos falar qualquer coisa, um homem veio correndo para a sala. Ele era gordo e vestia um macacão, seu rosto enrugado revirado em raiva acumulada. Em seus braços segurava uma espingarda de cano curto.

"Não fiz nada!" Chorei enquanto ele avançava em nossa direção, minha voz oscilando, "Eu não devia estar aqui!"

O gigante me ignorou e agarrou a criança e colocou-o contra a parede. O menino grunhiu quando suas costas bateram no concreto e seus olhos se levantaram para encontrar o homem grisalho.

Sem dizer uma palavra, o homem ergueu a espingarda, colocou contra a testa do garoto e estourou-lhe os miolos. Pedaços de cérebro respingaram nas paredes com um choque que me socou no estomago como uma soqueira de ferro. Havia um zumbido em meus ouvidos e o tempo parecia ter parado enquanto eu assistia o corpo sem cabeça sucumbir ao chão.

O ar voltou para os meus pulmões e o tempo pareceu voltar.

"JESUS CRISTO DO CÉU!" Gritei, lutando contra as amarras, meus olhos quase caindo do rosto de tanto pavor, "QUE PORRA É ESSA?!"

O homem ignorou meus gritos enquanto se curvava para recolher o corpo. Jogou o cadáver dilacerado sobre os ombros e saiu pela porta.

Logo, o corredor irrompeu em risadas maliciosas, um coro de vozes ululando em alegria. Fechei meus olhos, um som era ensurdecedor que preenchia meus poros com terror.

Minutos depois, a risada se dissipou e cautelosamente abri meus olhos, sem acreditar no que acabara de presenciar.

"Olá."

Dei um pulo quando percebi que outro homem estava diante de mim. Ele vestia uma camiseta branca de botão simples e uma calça jeans. Seus cabelos castanhos estavam cortados bem curtos e parecia ter uns trinta e poucos anos. Seus olhos verdes eram vazios e sem vida, seus lábios grossos repuxados para baixo nos cantos.

"O que está acontecendo? Onde estou?!" Chorei, o medo queimante se acumulando em meu estômago.

O homem cruzou os braços, "Então você é o novato, uh?" Balançou a cabeça, "O seu tipo me enoja."

Haviam perguntas na ponta da minha língua, mas ele balançou os braços, mandando eu ficar calado.

Ele passou a língua pelos dentes superiores, "Parece que você já viu alguns dos horrores que se abrigam nesse lugar, né? É, posso perceber pelo seu olhar. Está aterrorizado. Já viu algo, não é mesmo? O passado não parece tão ruim agora, né? Você está aqui só a cinco minutos e já está cagando nas calças."

"Onde estou?" Arfei, sem conseguir mais ficar calado, "O que vocês querem comigo?"

O homem segurou as mãos atrás das costas, "Aposto que você está querendo sair daqui, não quer? Aposto que você quer voltar para casa, para a sua família, tudo."

"Por favor," eu o interrompi, "Seja lá o que eu tenha feito para você... eu sinto muito, de verdade, mas eu não lembro!"

O homem revirou os olhos, "Você não fez nada para mim. Fez para você mesmo. Realmente não se lembra de nada?"

Balancei a cabeça negativamente e senti lágrimas nos meus olhos, medo líquido.

Ele me olhou com desprezo, "Você esperou que sua mulher saísse para o trabalho e então foi para o galpão e se enforcou. Você está morto."

A memória recente surgiu como um monstro de um pântano. Não importava o quanto eu quisesse negar... ele estava certo. Eu tinha me matado. O fato passou pelo meu cérebro como um trem-bala e me deixou pensativo.

"Meu nome é Danny, a propósito", falou, ignorando minha cara chocada, " E eu sou o número dois aqui. Eu tomo conta do processo de orientação. Quero que seja rápido porque estou de

saco cheiro de ter que repetir isso para vocês, suicidas patéticos. Você tem direito a uma pergunta antes de eu começar."

Ele me olhou de cima a baixo e eu tentei organizar meus pensamentos embaralhados em algo coeso. Era tudo aterrorizante. Por que eu havia me matado? Lutei contra o pânico e lentamente a névoa da confusão foi se dissipando. Eu havia acabado de perder meu emprego. Sim... esse foi o começo. Apertei meus olhos e forcei que outras memórias surgissem. Eu tinha acabado de perder meu emprego e estava prestes a perder a casa. Minha esposa... Tess... descobriu o que estava acontecendo e ia me deixar. Eu não tinha para onde fugir, não tinha outra opção. A demissão veio do nada e não tinha economias guardadas. Estava falido, logo me tornaria um sem teto, e minha esposa me odiava por isso. Mas havia outra coisa... sim... é, tinha mesmo. Ela estava me traindo. Eu havia lido algumas mensagens em seu celular enquanto ela dormia a noite e confirmei minhas suspeitas. Minha vida tinha se transformado em merda e não havia mais opções para mim. Humilhado e envergonhado, decidi que a morte era minha única saída.

"Ei, seu fodido, você tem uma pergunta ou não?" Danny falou, estalando os dedos na minha cara.

Voltei a realidade e perguntei a única coisa que importava.

"Aqui é o Inferno?"

Danny bufou, "Sempre a mesma pergunta." Ele começou a andar para lá e para cá na minha frente, "Não, aqui não é o inferno. Também não é o céu. Aqui é a Fazenda Negra. E não, não fui eu que nomeei assim. Aqui é onde Deus manda as almas que tiraram sua própria vida. Suicidas. Entenda, ele não sabe muito bem o que fazer com vocês e bem... nem o Satã sabe. Existem pessoas que são genuinamente boas que se matam. Parece cruel mandá-las para o Inferno por toda eternidade por um momento de fraqueza, sabe? Pessoalmente, só acho que Deus e Satã estavam cansados de discutir sobre isso. Então, bem, eles mandam vocês para cá, para a Fazenda Negra."

"Foi... foi Deus que criou esse lugar?" Perguntei, ficando cada vez mais confuso.

Danny cuspiu no chão, rindo, "Claro, em algum momento. Mas ele perdeu o controle quando colocou O Porco no controle."

"O que é O Porco?" Perguntei, mas em dúvida se queria mesmo saber a resposta.

Danny levantou uma mão, irritado, "Porra, posso terminar de falar?! Deus criou esse lugar, éons atrás, colocou O Porco no comando, e então esqueceu daqui por um tempo. Bem, quando virou as costas, O Porco decidiu usar seus novos poderes para tentar criar seu próprio mundinho. Essa bagunça que você está vendo à sua volta, é as sobras fraturadas deste experimento. A Fazenda Negra era bem legal antes, mas O Porco queria que as coisas fossem diferentes. Queria criar sua própria visão. Esses seres que você vê, esses monstros? São tentativas do Porco de criar vida funcional. Ao invés de replicar a terra de Deus, essas criações mutantes e horríveis são cheias de pecado e ódio. Estão desenfreados aqui, inabaláveis. Esse lugar é um caos. A Fazenda Negra é um circo de aberrações e monstros. E é a sua eternidade."

Medo fervilhou em meu estômago como óleo quente. Não. Não, isso não podia ser meu fim. Eu não acreditava em coisas daquele tipo. Não é real! Logo eu acordaria e percebera que foi apenas um pesadelo. Tem que ser!

Danny se pôs na minha frente e me deu tapinhas gentis no rosto, "Ei, ei! Não entre em histeria ainda. Não terminei aqui."

Levantei meus olhos marejados para encontrar com os dele.

Danny sorriu, "Você sempre pode alimentar O Porco."

Minha respiração parecia queimar meus pulmões, "O-o que você que-quer dizer com isso?"

Danny abriu os braços, ainda sorrindo, "É simples assim. Alimente O Porco. Se você alimentar, há uma chance dele te mandar de volta a vida."

"E o-o que acon-acontece se ele nã-não mandar?", gaguejei.

"Você será mandando para o Inferno. Então jogue a moeda, se tiver uma. Fique aqui conosco ou alimente O Porco. Se escolher ficar... te deixo ir para lá," apontou para a porta, "Mas te asseguro... o que te espera no fim do corredor... bem... vamos dizer que o inferno não é tão pior que isso."

Engoli seco, tentando dar o meu melhor para digerir tudo aquilo. Porque eu não tentaria alimentar O Porco? Seja lá o que isso signifique. Se ainda existia um resquício de esperança, eu o faria. Uma eternidade nesse lugar, na Fazenda Negra, no inferno ou... ou alimentar O Porco? Eu faria qualquer coisa para voltar. Esse pesadelo fazia meus problemas parecer nada.

Danny levantou a mão antes que eu pudesse falar, "Vou deixá-lo pensando um pouco. Volto mais tarde."

"Eu quero alimentar O Porco!" Gritei, sem querer passar mais nenhum segundo naquela sala. Pude ouvir uma mulher gritando no fim do corredor, seu choro aumentando enquanto algo carnudo batia contra ela. Meu respirar dava pontadas agudas em meus pulmões e minha garganta ardia. Danny notou o som e sorriu abertamente.

"Que som horroroso, né?" Falou suavemente enquanto a voz da mulher partia-se em agonia. Algo ainda estava batendo contra ela, o som da carne espancada fazendo minha imaginação se inundar com pesadelos.

"Por favor," arfei, " Só... só meu deixe alimentar O Porco. Não quero ficar mais nem um segundo aqui."

Danny se virou e foi andando, "Vou voltar mais tarde. Aproveite o seu tempo sozinho. Pense com carinho na sua situação. Pese suas opções. E lembre-se.... foi você que se pôs aqui."

E com isso, foi embora, me deixando no quarto mal iluminado.

As lágrimas rolavam por meu rosto.

A mulher continuou a gritar por horas.


***


Em algum ponto, eu caí em um semissono. A escuridão da sala parecia me pressionar e meus olhos se fecharam. Meu corpo doía e minha garganta era um círculo de fogo. A sede se instalara na minha garganta como um caco de vidro. Meus lábios pareciam papel amassado. Em minha cabeça, estouros de trovões. O quarto saia e entrava em foco e minha mente vagava pelos sons horripilantes que nunca cessavam.

Estava perdido em um nevoeiro, sem perceber que algo estava deslizando para dentro da sala até que senti uma fincada forte no meu dedão. Saí de meu torpor enquanto meu pé descalço pulsava em dor. Gritei e tentei me mexer, mas minhas amarras eram firmes.

O foco da minha visão voltou e pisquei em agonia enquanto sentia o sangue escorrer por entre meus dedos. Olhei para baixo para ver a fonte de minha dor e senti um grito se formando na minha garganta.

Olhando lá debaixo para mim, estava um homem sem braços. Ele se arrastava pelo chão como um verme, sua cabeça careca cheia de cicatrizes e sujeira. Suas pernas estavam presas bem juntas por arame farpado, forçando-o a se remexer pelo chão para se mover. Seus olhos não tinham pálpebras e estavam bem arregalados, duas bolas brancas avermelhadas que me fitavam famintas. Seus dentes tinham sido removidos e substituídos por grandes parafusos que saiam de suas gengivas como uma formação rochosa irregular.

Em volta de seu pescoço estava uma coleira de corrente, a qual segui com os olhos pelo chão até a porta aberta. A ponta da coleira estava sendo segurada por um homem alto e nu. Não tinha pelos e era flácido, coberto em cicatrizes similares de seu animalzinho de estimação. Uma sacola suja tinha sido colocada sobre sua cabeça e não pude ver muito de seu rosto, a não ser pelo olho vermelho que espiava pelo único furo da sacola.

Ele me olhou e agarrou seu pênis inchado, sua respiração pesada. Enquanto o homem sem braços se remexia até mim de novo, seu dono começou a se masturbar. Eu gritei quanto a boca cheia de parafusos me mordeu de novo, mas meus berros pareciam estimular ainda mais o homem nu.

"Sai de mim! Pare!" Gritei, horrorizado. Tentei chutar o homem, dando meu melhor para evitar os metais afiados. Dei com o calcanhar no topo da cabeça e ele gritou quando sua cabeça bateu contra o chão.

Um gemido de prazer escapou da boca do homem da sacola e me virei enquanto uma névoa preta pulverizava o chão. Houve um remexer de correntes e me virei novamente para vê-los indo embora, o homem sem braços sendo arrastado pelo pescoço. Olhei para onde o homem nu havia ejaculado e vi uma poça de formigas mortas. Vomitei em mim mesmo, uma mistura de bile e outros fluídos.

"EU QUERO SAIR DAQUI!" Gritei, vomito escorrendo pelo meu queixo, "EU NÃO PERTENÇO A ESSE LUGAR!"

Ouvi os dois homens irem embora pelo corredor, o som das correntes acompanhados pelo da carne sendo arrastada pelo concreto. Gritei de novo, mas sabia que ninguém ia me ajudar. Cuspi uma mistura de catarro com bile no chão, livrando minha boca do azedume. A força, tentei me acalmar. Não foi fácil.

Depois de um tempo, ouvi outra pessoa se aproximando. Eu estava em um período de calmaria miserável, minha mente era uma tela branca em um mar negro, mas o barulho me retirou do transe. Os músculos dos meus braços queimavam por estar amarrados por tanto tempo e eu o estimulava desesperadamente, tentando me preparar ao máximo para o próximo horror que entraria por aquela porta.

Os passos se aproximavam e então uma mulher entrou na sala. Ela parou na porta e olhou para mim. Ela não tinha um olho, era apenas um buraco cavernoso em seu crânio. Seu cabelo era bagunçado e selvagem, um emaranhado marrom como um ninho esquecido. Sua pele era pálida e suja, e estava vestida em farrapos. Não consegui descobrir sua idade, mas havia maturidade no olho que sobrara.

“Ainda pensando? ” Me perguntou, com sua voz quebradiça e amaldiçoada.

“Que? ”

Ele deu um passo em minha direção, “Você ainda está se decidindo se vai alimentar O Porco ou não? ”

Olhei cautelosamente para ela, “É.... estou. Quem é você? O que você quer?

“Uma vez estive na sua posição, ” disse, “tentando decidir meu destino. Mal podia acreditar que isso tudo estava acontecendo... que é isso que acontece depois que morremos. Não foi assim que eu aprendi... a religião não me avisou sobre esse lugar. ”

Tentei me soltar mais uma vez antes de perguntar, “Você também se matou? Você é uma pessoa como eu? Não é uma daquelas... criações? ”

Ela riu, “Quebra meu coração saber que você tem ainda que perguntar, ” ela tocou o buraco que um dia fora seu olho, “Mas entendo sua cautela. Sim, sou uma suicida. Estou aqui a muito, muito tempo. Mas essa foi uma escolha minha. Decidi que preferia ficar aqui. ”

Gesticulei com a cabeça em direção da porta, “O que tem lá fora? O que é esse lugar? ”

Ela suspirou longamente e se apoiou na porta, “Mal consigo descrever esse lugar. Não existe nada igual, nada que você já tenha vivenciado. Você sai do corredor e vai para... lá para.... e...” Ela engoliu a seco, “Você tem que ver para entender. ”

“É muito ruim? Porque essas pessoas mutantes estão machucando e matando uns aos outros? ” Perguntei.

Ela deixou a cabeça encostar na parede, “Levariam anos para você entender completamente esse lugar. Anos que você não tem. Agora você tem que fazer uma decisão. Fique ou Alimente O Porco. Eles dizem que o inferno é pior que aqui, mas não pode ser tão pior. Monstros e Suicidas rodeiam a Fazenda Negra... matando, estuprando, brutalizando... e então você acorda se perguntando quanto tempo consegue sobreviver até que alguém te mate. É um ciclo infinito. ”

“Então por que você ficou? ” Pressionei-a, “Por que não alimentou O Porco? Eu nem sei o que isso significa, mas faria qualquer coisa por uma chance de voltar. Não poso ficar aqui... simplesmente não posso! ”

Ela sorriu tristemente para mim, “Por que? Por que escolhi isso? É bem simples, na verdade. Sou covarde. Eu era covarde em vida e sou covarde em morte. Quando chegou a hora, escolhi ficar aqui. Eu não sabia o que me esperava lá fora. Se resumiu a uma simples escolha feita pelo meu próprio medo. ”

“O que é O Porco? O que ele faz com a gente? ” Perguntei.

Ela se virou para ir embora, “Creio que você mesmo terá que descobrir isso. Mas fique avisado: pense bem antes de decidir. As vezes sofrer pelo seu medo é melhor que sofrer por toda a eternidade. Seja corajoso. ”

“O que eu faço?!” Gritei, balançando minha cadeira enquanto ela atravessava a porta.

Ela parou e olhou uma última vez por cima do ombro. Seu olho me fulminou e sua voz foi apenas um sussurro, “Alimente O Porco. ”

E com isso ela se foi.

Fiquei sentado em silêncio novamente. Minha mente girava, desesperadamente avaliando minhas opções. Ainda não conseguia compreender a total situação que me encontrava. Era demais para mim. O outro lado da vida não devia ser assim. Não sabia o que esperava, mas com certeza não era esse pesadelo. Perguntas se debatiam na minha mente como ondas gélidas contra o casco de um navio naufragando. Como eu poderia fazer uma escolha se nem sabia o que isso me traria?

Esse lugar, a Fazenda Negra.... Eu não podia ficar ali. Mas e se eu fosse para o Inferno? O que aconteceria se eu não fosse mandado de volta? Seria mandado para o fogo. Minha existência seria condenada a miséria eterna. Entretanto aqui… aqui haviam pessoas como eu. Suicidas. Não eram somente monstros e assassinos mutilados. Talvez eu possa me encaixar com eles, bolar um plano para escaparmos juntos para um lugar melhor. Com certeza isso seria melhor que o inferno.

Não. Não seria assim que eu passaria o resto da minha eternidade. Me recuso a aceitar isso. Se houvesse esperança, por menor que fosse, não iria querer ficar me questionando como poderia ter sido. Não queria ser atormentado pela dúvida. Eu iria alimentar O Porco e aceitaria sua escolha sobre meu destino. Quando pesei as medidas, essa era minha única opção.

Eu iria alimentar O Porco.

“Ei! Olá?! Danny! ” Berrei, balançando em minha cadeira, “Já me decidi! Danny! ”

Depois de alguns segundos, ouvi passos ecoando pelo corredor em minha direção.

Danny passou pela porta, uma expressão irritada em seu rosto.

“Fiz minha escolha, ” Falei, “vou alimentar O Porco. ”

“Parece que você pensou muito desde que sai, ” Danny constatou ironicamente.

Lambi os lábios secos, “Você faria a mesma coisa se estivesse em meu lugar. ”

Danny se pôs atrás de mim, “Uma vez estive na mesma posição que você. E escolhi diferente. ” Arregalei meus olhos, mas logo Danny cobriu minha cabeça com um tecido fino, me cegando. Puxei bastante ar para os pulmões, mas minhas respiradas não pareciam conter oxigênio.

Senti Danny cortar minhas amarras e meu corpo se aliviou quando meus músculos duros foram libertados. Girei os ombros quando minhas mãos foram soltas e gemi com aquela sensação. Cocei as costas e depois me alonguei, meus ossos estralando.

“Não tire a venda e me acompanhe, ” Danny disse, me puxando.

Minhas pernas tremiam pelo peso inesperado, principalmente minhas coxas, por ter ficado tanto tempo na mesma posição. Estiquei as mãos cegamente à minha frente e encontrei os ombros de Danny. Descansei minhas mãos sobre ele enquanto Danny me guiava para fora.

Quando entramos no corredor, pude ouvir sons que antes não havia ouvido ainda. O barulho de correntes, um som longo de carne se partindo, algo vomitando... esses ruídos continuavam para sempre em meus ouvidos, pintando a escuridão de minha visão com cenas imaginárias de terror. Apertei o ombro de Danny com mais força, tropeçando a suas costas, meu coração disparado.

Ouvi algo se arrastando atrás de nós, mas Danny não parecia ter percebido. Ou se percebeu, nem ligou. O barulho de carne batendo contra a parede pareceu soar a centímetros de mim e de repente pude sentir um respirar quente na minha nuca, seguido de um estalar de língua contra os dentes. Minha respiração ficou ainda mais acelerada enquanto o medo me esmagava.

“ ‘Cê tá indo ‘limentar O Porco, né não? ” Algo sussurrou em meu ouvido. Senti algo ser pressionado contra a parte de trás da minha cabeça, mas só tentei não pensar no que aquilo poderá ser. Era molhado e gosmento e ouvi a coisa dar uma risadinha.

“ É um porquin’ faminto, ‘ntão tem cerrrteza dê dá a comida d’el agorrra, ” a coisa sussurrou de novo, a voz grossa se um jeito que nem sabia ser possível. Parecia uma série de grunhidos e gemidos postos juntos para formar palavras quebradas.

Para meu alívio, ouvi a coisa voltar de onde viera e continuei a seguir Danny. O mesmo continuou em silêncio enquanto andávamos, e logo pude sentir uma mudança no ar. O calor pesado mudou para uma temperatura mais fria, quase agradável, mas logo continuou a cair até que meu corpo começar a tremer violentamente contra o frio. Não conseguia ver nada, mas pude sentir uma brisa, como se estivéssemos na rua. Mas não havia ouvido Danny abrindo nenhuma porta, porém nada ali era normal. Era como se a realidade tivesse se partido e derretido.

Com os dentes batendo, fui arrebatado por um calor inesperado e arfei. Meus pés se desencontraram quando o terreno mudou e agora eu parecia andar sobre algo semelhante a metal morno. Meus ouvidos foram preenchidos por ruídos de fornos enormes e maquinas industriais. Eu não podia ver, mas senti que havia uma grande campo aberto mais a frente. Senti o cheiro de cinzas e senti um gosto sujo na minha boca, o suor já se formando ao longo da minha espinha.

De repente, bati contra Danny, que havia parado de súbito. Dei alguns passinhos para trás, rapidamente, e sussurrei desculpas. Pude ouvir movimentação a nossa frente, um tintilar de correntes e clique estranho no chão de metal. Outra coisa também... algo... roncando.

E então a sala se preencheu com um barulho ensurdecedor de um porco guinchado. Cobri meus ouvidos, minha cabeça girando por causa do som extremamente agudo. Rangi os dentes enquanto o som ecoava pelo chão de metal e ia se dissipando em uma série de guinchos e grunhidos.

Parecia ser absolutamente enorme.

"Trouxe mais um," Danny anunciou, um leve tom de respeito em sua voz. "Ele quer Alimentar O Porco."

Esperei, esperando ouvir uma resposta, o pano sobre meus olhos me deixando no escuro. Percebi que meus joelhos tremiam e que estava coberto de suor. Estava totalmente aterrorizado.

"Se é isso que desejas," Danny disse e senti sua mão sobre a minha. Aparentemente acontecera uma conversa silenciosa que eu não havia participado, então Danny me pegou pelo pulso e puxou-me para frente.

"Aproxime-se do Porco," me instruiu.

Meu corpo todo tremia e eu não conseguia me mover. Sem poder enxergar, ergui as mãos, tateando o nada, o calor e as cinzar me deixando enjoado. Senta como se fosse vomitar, meu estomago borbulhando. Eu não sabia onde estava nem que horrores estavam diante de mim. Me senti perdido e minúsculo, as minhas lágrimas ensopando a venda.

"Po-por favor," Implorei, "Me deixem ver o que está acontecendo."

Danny apareceu atrás de mim, me empurrando para a frente. Guiou minhas mãos para algo enquanto pisávamos no chão em uníssono. Mesmo com o pano em meu rosto, eu podia ver uma massa negra gigante erguendo-se como uma torre sobre mim. Era como um ponto preto em uma tela escura.

Enquanto ia para frente, fui açoitado por um cheiro horrível que me deu mais ânsia, então me virei. O aperto de Danny ficou mais forte e me forçou a continuar. Eu podia sentir algo bem perto à minha frente, uma massa de carne viva e enorme. O cheiro alcançou níveis absurdos de nojento e quase vomitei de novo. O ar quente estava sendo jogado em meu rosto, uma brisa aquecida que vinha em lufadas curtas.

Vomitei na carapuça, a fonte do cheiro fumegando no ar quente. Engasguei como a bile derramada sobre o tecido, a imersão momentaneamente cortando meu oxigênio. Danny deu um tapa em minhas mãos que queriam tirar a venda e eu levei alguns segundos para conseguir respirar novamente. Eu estava chorando abertamente agora, o medo e a miséria destruindo meu poder de vontade.

O pano molhado fedia enquanto eu puxava o ar. O ácido do meu próprio estomago cobria minha pele e eu só implorava que isso tudo terminasse logo.

E então algo guinchou bem na minha frente.

Senti minha bexiga ceder. Eu estava de frente para O Porco.

Ele era a fonte da escuridão que me assolava; uma criatura gorda, titânica, que preenchia meus sentidos a cada lufada de ar que jogava em meu rosto.

Danny levantou minha mão e me fez tocar o focinho do Porco. Recolhi meu braço imediatamente, mas Danny forçou minha mão de volta para lá. Seu pelo era duro e espetado e, enquanto minhas mãos tremulas exploravam seu nariz, o tamanho do animal ficou claro para mim.

Era gigantesco e devia pesar uma tonelada. Sua pele balançava debaixo das minhas mãos suadas e abriu sua boca levemente. Meus dedos envolveram-se em dentes do tamanho de facas de cozinha e percebo que aquela boca era absolutamente cavernosa.

O Porco guinchou de novo e ouvi seus cascos baterem contra o chão. Pareciam trovões de verão através de um campo aberto.

"Tire a venda, por favor," Implorei, minhas pernas se transformando em gelatina.

Danny tinha dado alguns passos para trás e ouvi a reverencia em sua voz, "Você não iria querer isso."

Dei um pulo enquanto O porco me farejava com seu focinho, aquele pedaço molhado de carne se espremendo contra minha face. Senti um arrepio, levantando minhas mãos e ocultando um grito de pavor.

"Alimente O Porco," Danny me instruiu, sua voz gélida. " Você fez sua escolha. Agora viva com ela. É a única chance que tens para voltar. Ou talvez O Porco não goste do seu gosto e te mande para o inferno. Só existe um jeito de descobrir."

Meus olhos se arregalaram por debaixo do pano vomitado, "Não...goste...do meu... gosto?!"

"Entre na boca dele."

Minha bexiga cedeu de novo e senti o mijo quente escorrer pelas minhas pernas, "Nã-não, vo-você não pode estar di-dizendo que..."

A voz de Danny ficou mais dura, "Entre na boca dele e não pare de entrar até que ele termine."

"Po-por fa-favor," Implorei, me virando em direção da voz de Danny, esticando os braços cegamente, "Por favor, deve haver ou-outro jeito... não me fa-faça fazer i-isso!" Eu era uma bagunça de ranho e lágrimas, minhas palavras trôpegas saindo de minha boca como de um bebê que aprende a falar.

Danny deu u passo a frente e me virou para eu ficar de frente para O Porco. "ENTRE! Você fez sua escolha! Tudo acabará em breve! É a sua ÚNICA chance!"

Pude sentir a respiração do Porco no meu rosto, seu focinho a centímetros de mim. O calor e o cheiro que exalava me dava vontade de vomitar de novo, mas me segurei. Aquilo era loucura, não podia estar acontecendo. Minha mente girava entre o medo e o caos. Devia haver outra forma. Eu não podia fazer aquilo, EU NÃO IRIA CONSEGUIR!

Repentinamente, as palavras da mulher me vieram à cabeça: As vezes sofrer pelo seu medo é melhor que sofrer por toda a eternidade. Seja corajoso.

Essa era minha única chance de voltar vivo para o mundo que conhecia. Eu havia cometido o pior erro possível quando me suicidara. Se eu podia voltar e mudar minha vida, eu não teria que viver o resto da minha eternidade ali ou no Inferno. Eu poderia mudar tudo, garantir um lugar melhor para minha alma. Algum lugar longe do Porco. Mas e se ele decidisse me mandar para o Inferno? Quanto sofrimento eu poderia aguentar?

Eu tinha que aproveitar minha chance.

"Por favor, Deus," Sussurrei, dando um passo para frente, "Se pode me ouvir, por favor, tenha misericórdia."

Minhas mãos tremulas encostaram no Porco e me agarrei ao seu pelo grosso. Senti ele abaixando a cabeça levemente e abrir a boca. Agora me aguardava, seu respirar quente e pesado queimando minhas narinas. Era isso. Não podia desistir mais.

Lentamente me agarrei ais dentes e me puxei para dentro de sua mandíbula. A cabeça dele estava inclinada, então imediatamente cai de barriga para baixo em uma inclinação de 45 graus. A língua molhada se remexia em baixo de mim e eu tremia tanto que mal conseguia respirar. As lágrimas se misturavam ao vômito da minha carapuça e pude sentir meu coração explodindo em batidas irregulares dentro da caixa torácica.

Devagar, agarrei um dente mais ao fundo para continuar me arrastando. Rangendo os dentes, me enfiei para dentro até os tornozelos. O Porco levantou a cabeça e fiquei totalmente em horizontal em sua língua.

Chorando de medo, procurei a minha frente e achei mais dentes. Me enfiei mais fundo em sua boca e senti meus pés passarem pelos lábios. Todo o meu corpo agora estava coberto de baba gosmenta e eu soluçava abertamente, procurando às cegas outros dentes.

E foi aí que O Porco começou a me mastigar.

Gritei em agonia enquanto meu corpo era comprimido entre dentes enormes. Ouvi minhas pernas estalarem e senti imediatamente o osso de minha perna esquerda ficando exposto. Me balancei violentamente enquanto meu corpo sofria espasmos pelo choque, um emaranhado de sangue e dor.

Sua língua mudou de lugar e senti uma mordida em meu ombro. Meus olhos quase saíram das órbitas e urrei de dor, minha clavícula era apenas destroços agora. Sem conseguir me controlar, vomitei muito, a dor era demais.

Não pare de entrar.

Gritando, com os olhos ficando vermelhos, usei meu braço bom para alcançar mais um dente. Quase quebrei minha própria mandíbula de tão forte que pressionava os dentes contra os outros, sangue escorrendo pelo canto da minha boca, enquanto meus dedos se envolviam em algo sólido.

O Porco mordeu de novo, sua língua girando meu corpo para que seus molares destruíssem meus joelhos. A dor fez tudo ficar escuro, mas meus urros forçaram meus olhos a ficarem bem abertos.

"JESUS, FAÇA ISSO TERMINAR!" Eu rugi, minha mão tremula procurando por mais dentes, "MEU DEUS, SÓ TERMINE LOGO!"

Pressionei tanto meus dentes que senti-os quebrar. Gritando, me enfiei mais para dentro da enorme boca.

Algo estava mudando, as paredes apertadas de sua garganta empurrando minha cabeça, foi aí que percebi que estava quase no fim.

"VAMOS FILHA DA PUTA! VAMOS!" Eu implorei, minhas cordas vocais no limite. Botei a mão para frente e me agarrei a um pedaço grosso de carne. Minha cabeça parecia que ia explodir e senti O Porco morder de novo.

Arfei, sangue explodindo de minha boca.

Ele havia perfurado meu estomago, transformando meus órgãos em massinha de modelar. A escuridão se completou em minha visão e eu já em conseguia gritar mais.

Com o último resquício de minhas forças, me empurrei uma última vez e senti meu corpo escorregar por sua garganta.



***



Escuridão.... Caindo... gritando. Eu estava gritando. Calor. Um calor tão intenso que achei que fosse derreter. Algo batendo. Como um martelo contra metal. Imagens e cores passaram tão rapidamente por mim que não conseguia distinguir as formas. Sangue saia de meus olhos.

Era como se eu estivesse caindo para sempre.



***


Meus olhos se abriram e eu estava caindo, o ar voltando para meus pulmões com uma maravilhosa onda de pureza. Minha cara bateu no chão de madeira e chorei quando senti meu nariz quebrando. Senti o gosto de sangue e vi estrelas.

Eu havia parado de cair.

Havia um círculo queimando em meu pescoço e eu sentia muita sede.

Eu estava deitado no chão.

Lentamente abri os olhos e a escuridão começou a se dissipar. Cores e formas se misturaram até minha visão focar.

Eu estava no galpão.

Coloquei a mão no pescoço e arfei quando vi a fonte da queimação. Era a corda. Eu havia me enforcado com ela, mas agora estava rompida.

O alívio rolou pelo meu corpo em maravilhosas ondas de agradecimento. Fiquei deitado no chão do galpão chorando, lágrimas que pingavam dos meus olhos no chão empoeirado. Meu corpo estremecia, mas estava intacto.

Eu havia sido poupado. Estava vivo novamente.

Do meu lugar no chão, me virei de barriga para cima, com a voz oscilante, "Obrigada, Deus. Ah, muito obrigada." Senti mais uma onda de choro incontrolável tomar conta de mim, "Prometo que não vou vier minha vida em vão. Prometo que farei ficar tudo certo. Eu concertarei tudo."

Não sei quanto tempo se passou até que eu levantasse. O tempo parecia irrelevante. Minha mente se recusava a voltar a ser como a de antes, todos os horrores que eu presenciara me mudaram para sempre.

Mas eu sabia, daquele momento em diante, que faria de tudo para ter a melhor vida possível. Viveria todos os dias como se fossem o último. Devotaria o meu tempo para ajudar aqueles que passam por fases obscuras como eu passara. Eu entraria em contato com o máximo de suicidas possível e tentaria salvá-los dos horrores do outro mundo.

Eu não quero que mais ninguém tenha que presenciar os pesadelos do suicídio.

Eu não quero que mais ninguém tenha que Alimentar O Porco.



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